Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 14 de dezembro de 2017 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Mais que um bom-dia

Uma nova manhã começa e, com ela, uma enxurrada de bons-dias e améns no grupo do Whatsapp. As pessoas se dispersam pelo mundo, mas sempre arranjam um jeito de permanecerem em contato. O abraço afetuoso foi substituído pelo gif de gatinhos. Ainda assim, o carinho está ali, na tela do celular.
Não importa o conteúdo, até porque cada turma tem seus códigos. Há os que prefiram piadas, os que adorem uma discussão sobre política ou os que apaziguem os ânimos com uma homilia do Papa Francisco. Se o texto é, mesmo, de Sua Santidade, ninguém sabe, mas a lição é bonita.

O comportamento nos aplicativos de conversa reflete a cultura de uma sociedade. Em recente reportagem de Zero Hora, especialistas debatem por que o brasileiro envia tanta mensagem de áudio. Em parte, trata-se de uma estratégia para driblar o baixo letramento da população. Falta intimidade com a palavra escrita, sendo mais simples acionar o microfone.

No entanto, a prática também está ligada ao hábito ancestral de contar histórias. Somos um povo de narrativas orais: lendas, causos, fofocas. E falamos com diferentes entonações, do deboche à ironia – sutilezas que nenhum emoji expressa.

Pode haver dificuldade em lidar com tios e avós no “zap”. Ocorre que imigrantes digitais não seguem as mesmas gramáticas nem possuem a pressa dos mais jovens. Aprendem, é claro, a comunicarem-se por novos meios, mas acabam reproduzindo antigos padrões.

Talvez um adolescente não se preocupe em responder aos 32 desejos de feliz aniversário da família. Talvez um sobrinho atarefado não assista aos 27 vídeos emocionantes compartilhados pelos parentes ao longo da semana (o excesso de informação banaliza, de fato, até mesmo as histórias mais impactantes).

Porém, o que está em jogo nem sempre é a mensagem em si. É a troca. É o gesto de preocupar-se com o outro e de querer estar junto. Na impossibilidade da presença física, usa-se uma imagem, uma oração ou uma música qualquer. Tanto faz. O importante é estar ali, nem que seja para um bom-dia.

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]