
TAQUARA – Francisco de Souza Soares é um homem de espírito ímpar. Aos 67 anos, o treinador da escolinha de futebol do Esporte Clube Atlético Palmeiras – projeto que faz parte do Bairro Empresa Melhor (BEM) – esbanja energia, carisma e envolvimento com as mais de 100 crianças e adolescentes atendidos pela iniciativa. Enquanto caminha pelo gramado do campo, Francisco se torna “Seu Chico” ou, ainda, “sor” – diminutivo de professor –, sinal de consideração daqueles que, muito além de respeitá-lo, também o admiram.

Há mais de 26 anos Francisco comanda a escolinha do Palmeiras. Neste período, fez quatro pausas que, somadas, não chegam a completar um ano. Quando os outros treinadores desistiam, ele voltava ao posto. Sentia-se doído por ver as crianças sem alguém para orientá-las. Conforme defende, o técnico precisa conhecer o comportamento dos jovens, ter paciência e equilíbrio para lidar com os altos e baixos na relação. Homem simples, de origem humilde, Chico tem experiências de vida para dar bons exemplos.
O pai de criação, João Ferreira Soares, trabalhava para a viação férrea do Estado, sendo transferido para o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (DAER). Com o emprego próximo da capital, o genitor, a mulher Doralina Souza Soares e os filhos se mudaram para Canoas. Mas, a adolescência e início da fase adulta, Chico passou em Esteio com os dez irmãos – ele é o mais velho, fruto do primeiro casamento da mãe. Foi na Região Metropolitana onde conheceu e casou com Consuelo Gessi Soares, há 38 anos, e teve os dois primeiros filhos, o Eduardo e o Ismael. O terceiro rebento do casal, André, é taquarense, após a família ter se mudado para o município.
Chico lembra ter sido o único negro na escola que frequentava. Fez supletivo no La Salle para concluir o ensino fundamental, mas não o exame, pois estava sem dinheiro para pagar. Na época, trabalhava em uma loja de fogões na Ramiro Barcelos, em Porto Alegre. Chegava todos os dias cansado à aula. Só terminou os estudos quando já estava trabalhando na antiga Calçados Azaléia – atual Vulcabras|Azaleia. Não continuou no ensino médio porque necessitava dar atenção à família.
Mesmo morando próximo à capital, vinha jogar pelo Palmeiras em Taquara. Um dos jogos foi contra o Tucanos, em 1969, na época com 19 anos. Também jogou no Esporte Clube Brasil, de Sapiranga – atualmente é a Associação Sapiranguense –, em Portão, pelo Cometa, com quem ganhou o campeonato intermunicipal de 1973. Em Esteio, era o treinador do Bento Gonçalves. Chegaram à final do torneio municipal, em 1978, contra o time do La Salle, mas ficaram com a vice colocação no primeiro e segundo quadros.
Nesta época, Francisco conta que sentia a necessidade de trocar a área de trabalho – até então, já havia sido pedreiro e vigilante. Um conhecido o indicou a buscar oportunidade de emprego na Azaleia. Após passar na entrevista com a recrutadora, foi admitido para a função de serviços gerais. Deixou a família em Esteio e veio sozinho morar na casa de uma tia que residia em Taquara. Passado algum tempo, buscou a mulher e os filhos para junto de si, alugando uma residência na rua Mato Grosso, no bairro Santa Teresinha. Posteriormente, também residiram no bairro Medianeira. A morada atual foi adquirida no final dos anos 1980, de frente para o campo do Palmeiras. O trabalho, deixou em 2003, quando conquistou a aposentadoria.
Em 2013, Francisco comprou uma máquina fotográfica – paga em prestações – para filmar os alunos do projeto. Com as imagens em um pendrive, foi até a Câmara de Vereadores na intenção de solicitar apoio ao projeto da escolinha, o qual estava prestes a encerrar por falta de condições para manutenção das atividades. Passadas três semanas, a vereadora Sirlei Silveira procurou Chico, e sugeriu que o programa fizesse parte do projeto Bairro Empresa Melhor (BEM). A iniciativa, começada em 2005, foi implantada a partir de uma proposta da Justiça de Taquara na Escola Estadual de Ensino Fundamental Dr. Breno Oswaldo Ritter, quando Sirlei era diretora do educandário.
Com a parceria, foi possível oferecer subsídio ao lanche e o fardamento dos jovens, além de materiais esportivos. “Se não fosse isso, eu teria desistido”, conta Francisco. Hoje, o projeto também conta com o apoio de voluntários, como os treinadores auxiliares Bruno Waschburger, André Soares e Jair Rodrigues; e Roana Kleinkauf, Ricardo Kleinkauf, Lucimar Guerra e Maria Ribeiro, responsáveis pela elaboração da merenda.
A escolinha tem aproximadamente 26 anos, mesmo período em que Francisco está como treinador, por convite do conselheiro tutelar da época Cléo Gonzaga. As atividades são oferecidas a mais de 100 crianças e adolescentes de sete a 17 anos. Algumas exceções com idade inferior são permitidas, desde que os pais ou responsáveis acompanhem o menor. É Chico quem monta os times, de acordo com o tamanho dos pequenos. Ele fica observando o comportamento dos jovens em campo. Quando necessário, chama a atenção, dá conselhos, impulsiona as partidas.
Muitos dos que passaram pelo projeto hoje jogam em times do bairro, como o Viracopos, Força Jovem, Força Livre, Sabadaço e Olaria. Francisco conta ter visto a possibilidade de alguns crescerem na carreira, irem para clubes grandes. Lastima aqueles que perderam a oportunidade, seja por percalços da vida ou por falta de interesse dos pais ou do próprio atleta. “É um celeiro de jogadores bons, mas se não tem apoio, fica difícil.” Para o final de ano, está organizando um torneio, para arrecadar fundos para a escolinha. “Isso aqui é um pulmão para o bairro.”
Quando era criança, o pai de Francisco dizia que ele era fominha por bola, pois queria jogar pela manhã, à tarde e à noite. Após crescer, tinha sonhos em que se via ao redor de um campo de futebol. Mal sabia que um dia, 29 anos atrás, estaria residindo em frente de um. O exemplo de amor ao futebol também inspirou aos três filhos dele, todos com passagens em times profissionais. Eduardo jogou no Caxias, Maier de Portugal, Santa Cruz, Brasil de Farroupilha, Esporte Clube Rio Grande, Aimoré e Nacional de Manaus. Ismael esteve no Juventude, São Luiz de Ijuí e em Carazinho. André foi para o Caxias e Cruzeiro de Porto Alegre.
Um dos desejos de Chico é que outras pessoas sigam o exemplo do voluntariado para tocar projetos similares, contando com apoio e espaço para tanto. Desde o ano passado, está procurando pessoas para ajudar a treinar os pequenos. “Alguma coisa na minha vida me puxou para este lado, para gostar de futebol. A maior alegria é ver esses guris tendo espaço para fazer o que gostam, se destacando.”


