
IGREJINHA – Os olhos atentos do casal Dorvalina dos Santos Pothin, 100 anos, e Floriberto Pothin, 95 anos, acompanham com interesse a partida entre Grêmio e Pachuca, pela semifinal do Mundial de Clubes, no dia 12 de dezembro, na televisão de tubo 21 polegadas, na sala de estar da residência na localidade de Morro Fortaleza, interior de Igrejinha. Ela, gremista apaixonada – “o (time) de azul é o melhor”. Ele, colorado assumido – “não adianta, temos que torcer igual, tá representando todo mundo”. Em comum, uma história de matrimônio de 71 anos, seis filhos, 11 netos e nove bisnetos.
O bom-humor é marca registrada de Pothin. Foi entre uma brincadeira e outra que ele conquistou o coração de Dorvalina. Na época, ambos estudavam o curso ginasial e trabalhavam no Instituto Adventista Cruzeiro do Sul (IACS). Ela era responsável por afazeres na cozinha, enquanto o companheiro colaborava na padaria do educandário. “Ele botou os olhos em mim e não largou mais”, descontrai a centenária, enquanto o marido rebate: “mas foi ela quem me pediu em casamento”. O fato é que, entre uma provocação e outra, o convite realmente aconteceu, dando início à vida conjugal conservada há sete décadas.
A diferença de idade deles nunca foi impedimento. O diretor do IACS daquele tempo, Dario Garcia, advertiu Pothin, então com 23 anos, dos “riscos” de uma relação com uma mulher mais velha – Dorvalina tinha 28. “Eu nunca dei bola pra isso, o que me importava era ela”, recorda, lembrando o jovem apaixonado que era em sua primeira experiência amorosa. “As mulheres têm que casar com homens mais novos, para eles poderem cuidar delas quando envelhecerem”, aconselha sorrindo a mulher, que já havia desistido de dois noivados até conhecer o atual marido.
As alianças nas mãos esquerdas trazem a lembrança do casamento, realizado no dia 11 de setembro de 1946, em Guaíba, cidade da família dela. Na noite anterior, Pothin estava em Porto Alegre para pegar a balsa até o município da celebração. No entanto, atrasou-se e perdeu a condução que faria a travessia, ainda a tempo de vê-la desaparecendo no horizonte. Mesmo que inconformado, foi obrigado a passar a noite na capital, para, no dia seguinte, partir cedo. Ele e a família contrataram dois carros de praça, sendo que um dos veículos estragou no meio do percurso até o local onde aconteceria o enlace.
O sacrifício também foi dela, que dormiu sentada em uma cadeira para não estragar o penteado. Apesar de todos os contratempos, a cerimônia aconteceu pela manhã, com a benção do pastor Osvaldo Azevedo. Na saída, nada de luxo: casal e convidados caminharam até a balsa que os traria de volta a Porto Alegre, onde Pothin e Dorvalina passaram a noite de núpcias. Para custear os gastos, o homem contraiu um empréstimo, pago com satisfação.
Desde o casamento, o marido se pôs na responsabilidade de prover o sustento da família. Durante grande parte da vida profissional, trabalhou como empresário de ônibus, que ele mesmo dirigia, fazendo linhas na região Sul e na Fronteira do estado, mas se aposentou como motorista de caminhão. Exímia cozinheira e bordadeira, Dorvalina ficava encarregada da residência, alimentação e cuidados com os filhos e o marido. A primogênita do casal, Iria, hoje reside com eles, juntamente com o esposo Edir Wolff, com quem completará 50 anos de matrimônio em janeiro. Depois vieram Marli, Arlete, Marinelta, Hélio e Hélmio.
A vinda para Igrejinha, quase na divisa com Taquara, foi há 10 anos. Já idosos, passaram a depender da ajuda e supervisão de familiares. Como aqui residem três filhas, procuraram um sítio em que pudessem desfrutar de sossego. Hoje, Arlete toma conta dos pais na parte da noite, dividindo a rotina com a cuidadora Jurani. “Eles são exemplo de caráter, perseverança, prazer em fazer as coisas”, comenta a filha, recordando gostosos momentos em família.
O casal é unânime em dizer que os filhos são a maior fonte de riqueza de um lar, que continua se renovando, pois, em fevereiro, Hélio, aos 57 anos, será pai pela primeira vez, dando o 11º neto para Pothin e Dorvalina. Após anos de muitas atividades, a rotina hoje, na morada rodeada por verde e o gorjear dos pássaros, é leve, entremeada pela atenção da família e visitas de amigos. “Eles representam a união de uma família”, confessa o genro.
Assim como na vitória do Grêmio, em gol de Éverton, após sair do banco de reservas, na primeira etapa da prorrogação do jogo contra o Pachuca, no estádio Hazza Bin Zayed, em Al Ain (EAU), a relação de Pothin e Dorvalina foi marcada por emoções, conquistas, sonhos e realizações. O casal em bodas de zinco compartilha o segredo para tantos anos de convivência: “Em primeiro lugar, servir a Deus. Depois, é preciso se entender entre si”, revela a esposa, sobre a necessidade do diálogo, compreensão e parceria. “Tem que perdoar um ao outro pelos erros, e viver a vida como a gente pode, e não como a gente quer”, reflete o marido.
Matéria publicada na edição impressa do Jornal Panorama de 15 de dezembro.


