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Panorama Entrevista: diretor do Lar Padilha fala sobre o balanço de 2017

Em entrevista ao Jornal Panorama, o diretor do Lar Padilha, Fernandes Vieira dos Santos, comentou sobre as preocupações para o

Em entrevista ao Jornal Panorama, o diretor do Lar Padilha, Fernandes Vieira dos Santos, comentou sobre as preocupações para o final de ano, principalmente com a diminuição dos repasses de prefeituras neste período e o aumento dos custos com folha de pagamento. Santos ainda fez um balanço deste ano, agravado pela crise financeira, que comprometeu o fluxo de caixa.

• Como foi o ano do Lar Padilha?
Foi um ano difícil, está sendo ainda de muita apreensão, de colocar os pés no chão. Cada passo que demos tivemos que pensar muito mais, não só em razão das dificuldades econômicas, mas de trabalho mesmo. Terminamos o ano com a equipe bem exausta, em razão de várias demandas internas, de muita instabilidade, que não permitiu a realização de muitos projetos, por mais que tínhamos um planejamento do que queríamos desenvolver durante o ano.

• Quais foram as principais dificuldades?
Fluxo de caixa é a principal delas, aquilo que não entra no mês que estamos esperando, principalmente os atrasos públicos, além de alguns projetos que fomos contemplados, como alguns até do ano passado, que ainda não recebemos o recurso. Pensávamos em receber no início do ano, para desenvolver durante 2017, e ainda não recebemos. Agora estamos empurrando para o ano que vem. Na semana passada, recebi a informação de que entraria o recurso agora, dia 20 de dezembro. A maior dificuldade é financeira mesmo, porque ela não deu muita tranquilidade para pensar nas outras pontas, que é a execução do trabalho, o monitoramento das atividades, o que foi planejado fazer. Em razão disso arrastamos para o segundo semestre um projeto que queríamos ter começado no primeiro, que é uma avaliação do nosso trabalho. Escrevemos um projeto com uma parceira, que é a FLD (Fundação Luterana de Diaconia), e ela contemplou o Lar com recurso para fazer este processo de reavaliação e discussão do nosso planejamento estratégico para os próximos cinco anos e o nosso projeto pedagógico. Queríamos ter feito desde o começo do ano, mas no primeiro semestre não deu para fazer, então começamos agora no segundo. Tivemos três etapas, a primeira uma avaliação externa das duas unidades, feita por uma pessoa que conhece o meio, faz uma análise bem fria, sem comprometimento. E começamos o processo de formação, com dois encontros, abordando direitos humanos em geral e especificamente para crianças e adolescentes. Foi um primeiro momento para todos os funcionários se situarem e partirmos, no ano que vem, para começar a discussão da política pedagógica. Esse, com certeza, é um dos aspectos mais positivos do ano, começar este processo, que é discutir qual será o futuro da entidade. Esse primeiro momento é interno, mas depois haverá um segundo, externo, em que faremos uma consulta a parceiros, como entidades, comunidade, amigos do Lar, que também poderão opinar.

• Para esse final de ano, o que acontece nesse período no Lar Padilha?
Final de ano é bem intenso. Começamos em outubro, quando temos dois grandes eventos, um deles a Oktoberfest, em que trabalhamos para arrecadação praticamente 10 dias, e a gincana de Dia das Crianças, que sempre acontece dia 12, mas esse ano teve que ser adiada e ocorreu dia 15 de novembro. E a partir daí as atividades se emendam uma à outra. Em novembro, as crianças terminam de ensaiar para o evento que acontece neste sábado, a nossa Noitada Cultural. Em novembro e dezembro ainda tem a preocupação com o sucesso escolar deles, temos que estar muito mais próximos, tentando várias alternativas diferentes para que realmente tenham êxito. Fazer tudo isso no mesmo mês em que também é um período de muitas audiências das crianças, isso retira nós de dentro da instituição, se torna um mês bem agitado. Ademais que em dezembro ainda há um incremento muito grande de visitantes e doadores, temos que dar essa atenção às pessoas.

• Esse período de festas libera as crianças?
De toda essa movimentação, o aspecto mais importante é a ansiedade que muitos têm de, talvez, passar um período em casa nesse final de ano. Em outros anos já tivemos mais sucesso, agora, neste ano, temos percebido bastante dificuldade de promover este retorno, em razão de que trabalhamos mais com adolescentes, que têm dificuldade maior de promover o retorno para a família, devido aos laços já estarem bem rompidos. Às vezes, as famílias também estão em uma situação muito difícil para receber eles e, então, essa é a maior apreensão de dezembro. As audiências dão o norte disso, de quem vai poder passar ou não as festas com as famílias. Nem todos têm audiências, era importante que tivessem, mas algumas comarcas não têm feito. A comarca de Taquara, nesse sentido, é exemplar, sempre faz audiências a cada seis meses, o que a lei exige. Algumas outras têm feito também, mas não todas. Isso causa uma tensão muito grande. Tem crianças que estão há um certo período acolhidos que nunca tiveram uma audiência.

• Quantas crianças estão em cada uma das unidades?
Hoje nós temos 19 aqui no Centro e 74 em Padilha. Isso muda quase todo dia. Nessa reta de final de ano mais ainda, em razão das audiências, que acabam fazendo o desligamento, que é quando a criança pode retornar para casa, ser adotada, entre outras medidas. Como há esse giro de saída, muitos municípios têm uma demanda reprimida. Há situações que necessitariam do acolhimento, mas não há vagas, então quando sai um já está se esperando para trazer outra criança. Esse é o momento que estamos vivendo. Temos mantido essa faixa entre 90 e 100 crianças durante o ano, o que é um número muito alto, queremos diminuir, estamos fazendo um esforço para isso.

• O que seria o ideal?
O ideal é 80 no máximo.

• O que motiva o excedente?
A resposta é complexa, mas em anos que estamos vivendo um período de crise, isso também contribui, pois voltamos a receber crianças que vêm por dificuldades econômicas, o que não é o normal acontecer. Nestes dois últimos anos, por exemplo, voltamos a receber crianças em que o motivo é a falta de condições econômicas da família, o que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) preconiza que não deveria ser motivação, pois os serviços de assistência social dos municípios deveriam dar conta. E quando há uma crise como essa, aquela faixa da população que está no limite cai, desce um degrau, onde não consegue mais sustentar, e aí fica muito próximo da violação de direitos. Ou seja, falta alimento, dificuldade com a escola, entre outras. São situações que aumentam o acolhimento. Não estou me referindo apenas a Taquara, mas, quando não conseguimos dar atenção na básica, que é a prevenção, estoura lá na alta complexidade, que é o acolhimento.

• Qual é a característica das duas casas?
Na casa do Centro, na rua Marechal Floriano, a opção que fizemos é de atender de zero a oito anos, a primeira infância, principalmente em razão de conjuntos de irmãos. No Centro também funciona a República. E, em Padilha, dos oito aos 18 anos, com casas mais voltadas aos adolescentes, tendo outro foco de atendimento.

• Depois dos 18 anos, o que acontece?
Aí cada caso é individual. Para alguns, aqueles que têm condições de retornar, temos que promover o retorno ao convívio familiar. Para aqueles que estão com nós cerca de 10 anos acolhidos, que já perderam o vínculo familiar em razão dele nunca ter sido muito positivo, oferecemos a República, desde que se adequem às nossas condições e regras. O básico é trabalhar e estudar. Neste ano, tivemos bastante dificuldade de arrumar trabalho, pois não foi um ano fácil. Temos quatro meninas e quatro meninos hoje, e seis estão trabalhando. Temos um menino e uma menina que não estão empregados, estavam, mas terminaram seus contratos. Não dá para simplesmente abrir a porta e jogar essas pessoas no mundo, pois se jogaria todo um trabalho fora. Então, na República, os jovens que aceitam as regras ficam ali até que consigam caminhar sozinhos. Para nós é motivo de orgulho, temos uma menina que está na República trabalhando e cursando Publicidade e Propaganda na Faccat.

• Como tem sido o apoio da comunidade?
Temos sido muito felizes. Em relação à comunidade de Taquara e região não há do que reclamar, pois se você ficar meia hora na casa do Centro, alguém chegará nesse intervalo trazendo alguma doação. Recebemos muitos itens de alimentação, higiene e limpeza, roupas, brinquedos, móveis, entre outras. Não temos equipe para conseguir dar a atenção que as pessoas precisam. Tentamos montar, mas sempre tem um atendimento aos acolhidos, acaba que temos pouco tempo de atenção a esse pessoal, a quem somos muito gratos.

• Quais são as principais necessidades?
É muito sazonal. Nessa época do ano, a primeira coisa que pedimos é dois empregos para esses dois jovens da República. Em segundo, com certeza, dinheiro, em razão de que novembro, dezembro, janeiro e fevereiro é um período em que despenca a entrada de verbas das prefeituras. Em março, isso volta a normalizar. Mas, é o período em que, ao mesmo tempo em que cai muito o recurso, temos praticamente duas folhas a mais, que é o décimo terceiro e as férias do pessoal. Isso acaba tendo um custo muito maior do que o normal. É um período também, principalmente em dezembro, janeiro e fevereiro, que tentamos fazer alguns passeios com as crianças, o que gera mais custos do que o normal. Em terceiro, para quem não pode fazer doação em dinheiro, pedimos para vir na semana conversar, fazer o contato e verificar as necessidades, que também são divulgadas, na medida do possível, na página do Lar no Facebook. O que podemos pedir sempre, que não é problema pela data de validade, é material de higiene e limpeza. Roupas, hoje, não temos condições de receber, pois não há espaço de armazenamento. Temos feito os brechós em outros municípios e em Padilha, apenas evitado realizar em Taquara para não atrapalhar os eventos de outras entidades.

• Como as parcerias ajudam?
Depois do poder público e dos projetos, essas parcerias bem pontuais, com Lions, Rotary, igrejas, comunidades, empresas, funcionários de companhias, entre outras, são fundamentais no orçamento do Lar. Fizemos a Oktoberfest com 50% de voluntários externos, em um evento que rendeu R$ 20 mil para o Lar, no repasse da festa e nos lucros com a venda dos lanches.

Matéria publicada na edição de 15 de dezembro de 2017.