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Estado cobra explicações da Associação Silvio Scopel para negativas de atendimento no Hospital de Taquara

Prefeitura de Taquara também constatou, em auditoria, falta de insumos e cancelamento de cirurgias.

O governo do Estado e a Prefeitura de Taquara estão constatando falhas de atendimento no Hospital Bom Jesus, de Taquara, gerenciado desde o dia 20 de dezembro pela Associação Beneficente Silvio Scopel. A entidade foi nomeada pela Justiça Federal em uma ação civil pública para substituir o Instituto de Saúde e Educação Vida (ISEV), afastado do comando do hospital no dia 20 de dezembro. O governo encaminhou ofício à casa de saúde pedindo explicações, enquanto a Prefeitura constatou problemas em auditoria externa. A administração municipal disse que as situações serão informadas ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público Estadual (MPE), autores da ação que resultou no afastamento do ISEV.

O ofício do Estado foi encaminhado ao hospital na última sexta-feira pela titular da 1ª Coordenadoria Regional de Saúde, Maria Luiza Suarez Moraes. No documento, ela relata negativas de atendimento no Hospital Bom Jesus. Um dos casos, segundo ela, ocorreu na noite do dia 12 de janeiro, quando não foi atendido paciente adulto com apendicite aguda oriundo de Riozinho. Segundo teria informado o enfermeiro do hospital de Taquara, o atendimento não poderia ser feito com a alegação de que o raio xis e a tomografia não estavam em funcionamento. Após uma hora de tentativa, acabou que o paciente foi recebido.

No dia 13 de janeiro, a diretora do Hospital de Cambará do Sul informou à coordenadoria que estava com um paciente de oito anos, com apendicite aguda, esperando atendimento, mas o hospital de Taquara informou que estava sem anestesista. Já no dia 17 de janeiro, a negativa foi para o Hospital de São Francisco de Paula, que informou estar, desde o final de semana, sem conseguir transferir nenhum paciente da obstetrícia uma vez que a casa de saúde de Taquara alegava estar sem medicamento, sem anestesista e sem plantonista obstétrico. O caso não foi atendido e a coordenadoria estadual repassou o paciente para Parobé.

“Cabe registrar ainda que os exames de colonoscopia e endoscopia que estavam agendados ao final de dezembro de 2017 foram cancelados e isso demandou o aumento da fila de espera”, acrescentou. A coordenadoria Maria Luiza pediu retorno sobre os problemas apontados no prazo de 24 horas e acrescentou que, ultrapassados 15 dias sem a oferta de serviços, seria convocada uma reunião regional a fim de definir as novas referências entre os hospitais da região. Ou seja: o hospital de Taquara poderia perder serviços para os quais atualmente é referência de atendimento.

O que diz a prefeitura

O secretário municipal de Saúde, Vanderlei Petry, se manifestou, nesta segunda-feira, ao programa Painel 1490, da Rádio Taquara, sobre a situação do Hospital de Taquara. Confirmou que também recebeu o documento do governo do Estado e informou que a Prefeitura estaria repassando as informações que possui ao Ministério Público, autor da ação judicial. Segundo Petry, também será anexado relatório da auditoria externa contratada pela administração municipal, que esteve presencialmente no hospital na última quinta-feira e presenciou algumas das situações apontadas, como a falta de insumos e o cancelamento das cirurgias eletivas já agendadas. Os documentos, conforme Petry, serão encaminhados, também, ao Conselho Municipal de Saúde.

O secretário ressaltou que a administração municipal cumpriu fielmente a decisão da Justiça e, por isso, repassará as informações que possui. Acrescentou que a Prefeitura está trabalhando na elaboração do edital de um chamamento público, conforme o determinado pela Justiça, para a definição da entidade gestora do hospital de Taquara. Uma das preocupações é estabelecer a exigência de que a entidade apresente um projeto para a casa de saúde.

Sobre os recursos da Prefeitura, Petry disse que, até o momento, não houve nenhum repasse à Associação Silvio Scopel, pois apenas no último dia 20 fechou um mês de trabalho. A administração aguarda a prestação de contas, para, então, submeter a documentação à auditoria externa e ao Conselho de Saúde, a fim de providenciar o pagamento. Petry se disse preocupado com a eventual convocação de uma reunião pelo Estado para definir competências, pois o hospital poderia perder eventuais serviços, e a luta é por manter essas referências na casa de saúde.

CONTRAPONTO

A direção do Hospital Bom Jesus, de Taquara, se manifestou por meio do diretor técnico Renato Roberto Menzel, sobre o pedido de explicações em relação a negativas de atendimento na casa de saúde. O médico vê, no documento do governo do Estado, um movimento persecutório e tendencioso. Segundo ele, em relação ao caso de Cambará, que envolve uma criança de oito anos com apendicite, a informação de que não havia anestesista é incorreta, pois o profissional estava à disposição. O que acontece é que, pelas informações repassadas, o médico plantonista do Hospital de Taquara entendeu que o caso seria de complexidade maior.

Já com relação ao paciente de Riozinho, o diretor Renato informou que houve a cirurgia. O médico estranhou o fato de o Estado se manifestar pela dificuldade de comunicação, uma vez que, ele próprio, como diretor, muitas vezes fica várias horas tentando conseguir transferência de pacientes e não vê manifestação do Estado com relação às demais casas de saúde.

No tocante às cirurgias canceladas, Renato Menzel reconheceu que ocorreram por falta de medicamentos, que aguardam os repasses do Estado e da Prefeitura de Taquara para poderem ser comprados. Segundo Renato, a Prefeitura costumava efetuar os repasses sempre no dia 10 ao Instituto Vida, o que não ocorreu. Quanto ao Estado, também não ocorreram repasses na semana passada, e o diretor espera que a situação se desenrole nesta semana. Além disso, Menzel avaliou que a prefeitura pode pagar um auditor externo, mas deixa de forma secundária o compromisso com o hospital.

O diretor acrescentou que, com o Instituto Vida, ocorreram problemas com anestesistas e falta de medicamentos e nunca houve um documento com este formato da Coordenadoria Regional de Saúde, apenas pelo Conselho Municipal de Saúde de Taquara. Sobre equipamentos, Menzel questionou se, nas auditorias da Prefeitura, foi apontado que em 18 meses o Instituto Vida não fez manutenção em várias máquinas, que apresentaram defeitos. “Podem ter certeza que estamos procurando deixar as questões em nível de atendimento à população, mas precisamos da cooperação de todos os envolvidos”, comentou Menzel, acrescentando que a Associação Silvio Scopel está há quatro semanas na gestão da casa de saúde. Por fim, ressaltou que ainda não foi possível obter o valor de R$ 1,1 milhão bloqueado do ISEV e que, pela ordem judicial, deveria ser transferido ao hospital de Taquara.

Em vídeo, assista a entrevista do secretário de Saúde à Rádio Taquara: