Do “Meu livro de citações”: Se você não come carne por avareza, mas não quer passar por pão-duro, finja que é vegetariano.
MEU PASSADO ME CONDENA
Deixei passar em branco uma data marcante nestes últimos dias. Não sou muito chegado a efemérides e isso, às vezes, tem-me feito viver situações mais ou menos constrangedoras, tais como esquecer o dia do aniversário de alguém, inclusive de pessoas demasiado importantes na minha vida. Parece, à primeira vista, que esse descuido revela malquerer, mas, do fundo do coração, não é verdade, é o velho e mau esquecimento. No caso referido acima, a importância tem mais significado para mim do que para qualquer outro, ou seja, é um assunto bem íntimo. Porém faço questão de falar a respeito: no dia 19 de agosto completaram-se quatro anos desde a primeira vez em que escrevi neste jornal. Viram?O fato já ia ficar sem registro e ninguém poderia me acusar de malquerer a mim próprio!
O assunto de hoje, entretanto, é de outra ordem. Um título claramente novelesco. Telenovelesco, melhor dizendo. Dá até para supor ter sido de autoria da Janete Clair. Mas é meu mesmo. Vamos ao caso.
Uma das coisas mais difíceis e dolorosas de serem executadas por uma pessoa é a limpeza de armários, gavetas e prateleiras. Não falo da limpeza de poeira ou outro tipo de sujeira física. Falo daqueles guardados, acumulados ao longo dos anos, fruto de um trabalho minucioso de criação de raízes fincadas no passado. São roupas, documentos e recordações empacotadas, semelhantes a recibos da nossa vivência diária. Invariavelmente, concluímos que alguns daqueles objetos não deveriam mais continuar ali, pois perderam o significado, ficaram velhos em vez de antigos. Esses, nós refugamos para conseguir mais espaço nos nossos móveis. Ao mesmo tempo, há aqueles que continuarão armazenados, confirmados em seu valor para a nossa história. É, às vezes, um processo doloroso. Aliás, a história é feita em grande parte baseada nessas pequenas memórias.
Nos últimos dias lá em casa, resolvemos fazer uma revisão, recompondo nosso acervo bibliográfico e documental. Estava precisando. Sou um guardador compulsivo e, se não me cuidar, logo serei soterrado por montanhas de lembranças. Para mim, cada escrito ou anotação tem alto valor estimativo. Foi assim, nessa atualização que, do fundo do baú, meu passado saltou de dedo em riste, gritando: “Culpado, você é culpado!”. E a testemunha principal do deslize era uma criança de apenas seis anos: meu filho. Conto.
A prova do crime era uma folha branca escrita com vacilante letra de forma: “Meu nome é Vágner, tenho 6 anos e gosto muito de você, Xuxa. O meu pai também!”. Horror dos horrores, isso foi em 1986. Juro que não era verdade, eu disse aquilo só para agradar meu filhinho. Mentir é feio, eu sei, mas a situação justificava. Hoje, aproveito para restabelecer a verdade histórica: eu não gosto da Xuxa. Imaginem se a Ivete Sangalo descobrir. Vai sentir-se envaidecida, pensando ser a única.
De qualquer forma, aquela folha vai continuar guardada.


