Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 9 de março de 2018 e está arquivada em Tempo Contado.

A decisão, por Doralino Di Souza

A decisão

Se eu decidir não tem volta, ela pensa. Esperou que a mãe e os irmãos mais novos pegassem no sono, quando a quietude tomou conta, saiu do quarto. Num silêncio planejado andou pela casa. Tateou nas paredes, já que acender liquinho era risco, e assim foi indo. No fogão de lenha estalavam brasas, teimando em não virar cinza. Calor tão aconchegante, ela pensou. Abriu a porta da cozinha na medida exata para o corpo miúdo passar. Sentiu o frio da noite, o luar. Um medo.

O abraço apertado na mãe tinha sido antes, na hora da velha ir deitar, “Hoje teu pai não vem, minha filha, tranca bem as portas e janelas e não demora pra se recolher”. As palavras eram carinho. Deu beijo no rosto, causando surpresa e riso na mãe sonolenta. O espio devagar nos pequenos, “Essa gurizada arteira já dormiu”. Depois ficou ouvindo o tic-tac do relógio na parede dizendo; “pensa, pensa, pensa”.

Agora está na varanda. A sacola com as poucas roupas. A dúvida. Segue em frente? Ou volta quietinha e vai deitar? Seria o melhor a fazer? Decerto que sim. Amassar o cuscuz bem cedo, tirar o leite, soltar as vacas, tratar as galinhas. Quando o pai chegar, como vai ser? A cara fechada dentro da barba porque perdeu na canastra de novo. Quase certo que surra a mãe.

Mas queria tanto conhecer as coisas que ouviu no rádio. Que viu naquela revista que a irmã mandou. Queria conhecer a cidade. As ruas sem barro, feitas duma pedra chamada paralelepípedo. “Nossa! Que palavra bonita: paralelepípedo”. As noites iluminadas por luzes. Os perfumes. E claro, andar de trem e de automóvel. A irmã escreveu dizendo que arruma trabalho, ou na fábrica ou numa casa de família.

O cachorro se aproxima, ela o acaricia, “Quer me dar tchau, é?” Um quero-quero grita no potreiro, chamando atenção do cão, ele corre pra lá, acuando e abanando o rabo. “Vou sentir tanta saudade desse jaguara.” Respira profundamente, reconhece o cheiro da horta, da parreira, das flores que a mãe plantou a beira da casa. Reconhece até mesmo de quem é o mugido que vem da estrebaria logo adiante. Ela junta a sacola, aperta firme contra o peito. Olha pra dentro de casa, depois pra estradinha que leva do pátio pra além da cancela. Decide.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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