Roseli Santos
Esta postagem foi publicada em 16 de março de 2018 e está arquivada em Roseli Santos.

Marie, por Roseli Santos

Marie

Marie tem muito a nos ensinar. É uma gatinha branca, com um olho azul e outro esverdeado, que se tornou a mascote do Fórum de Três Coroas. Marie não sabe de nada, não tem consciência de onde foi se meter, ou melhor, morar. Ali, entre mesas, cadeiras, juízes, funcionários, audiências, réus, vítimas, testemunhas, papéis e computadores, ela circula livremente, tira um cochilo e tem muitos pais adotivos na casa que a abriga.

Marie ganhou um lar e tem todas as atenções neste local que a acolheu e também nas residências dos funcionários que não a abandonam nem aos finais de semana. Marie foi notícia de jornal porque se tornou uma exceção e um exemplo de humanidade e de respeito aos animais, coincidentemente, por morar em um lugar onde a lei impera como Justiça para os homens.

Há lei para defender os direitos dos animais, também, mas atitudes e gestos como este podem transformar vidas, humanizar ambientes insalubres, curar doenças e dar mais leveza ao dia a dia de cada cidadão, seja de Três Coroas ou de Nova York. Há muitas Maries abandonadas neste mundo, dependendo de uma simples ação humana para sobreviverem.

Vejo pessoas endurecidas, rígidas, secas, sisudas e carrancudas, defendendo seus próprios interesses como se fossem peças separadas e independentes deste chão que habitamos, chamado Terra. É aqui, neste mundinho lotado de gente que sofre tanto quanto, e também é abandonada cruelmente, que respiramos o mesmo ar que os animais; comemos, por vezes, a mesma comida; e dormimos sob o mesmo teto, seja numa casa luxuousa ou sob a marquise de um viaduto.

Tudo se resume a uma coisa só. Gente, bicho, planta, pedra ou pau nasce e termina do mesmo jeito, um dia qualquer, quando menos se espera. Pode ser atropelado ou de morte morrida, como celebridade ou como um ilustre desconhecido, gente ou bicho, pedra esfarelada ou pau apodrecido.

 Marie tem sorte de não saber o que sabemos ou julgamos saber. Por isso mesmo, mira a câmera fotográfica que a eterniza nas páginas do jornal com o raro olhar bicolor iluminado a nos inundar, profundamente, com essa sensação de imensa felicidade.

Marie tem muito a nos ensinar.

Marie é a brisa que areja e humaniza.

Marie já é um lindo caso de jurisprudência.

Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]