
A espera
Da janela do terceiro andar o menino consegue avistar a portaria do edifício. De pé, sobre o sofá, o rostinho pressionado contra a vidraça, ele observa o movimento lá embaixo. É espera. A mãe do menino, sentada junto à mesa, sorve o chimarrão, folheia o jornal, mas não se concentra na leitura. Ela é espera também.
É domingo de manhã. As ruas recebem crianças saltitantes em sorrisos largos com seus ovos de chocolates e brinquedos. O sol, nem quente, nem frio, se derrama vagaroso, igual aos minutos que fazem a espera daqueles dois. A mãe do menino identifica um soluço vindo da criança. Depois ela ouve nitidamente o lamento do filho: “Ele não vem”.
Levanta-se da cadeira, aproxima-se do menino, que permanece imóvel, os olhos fixos na rua. Ela acaricia o cabelo do guri, desliza a mão sobre o corpo miúdo dentro do pijaminha com ilustrações de super-herói. Tenta uma brincadeira, faz cócegas, dá pequenos beliscões. O menino se encolhe, ri, gargalha. A mãe ri também e se agarra na felicidade daquele instante.
Sons da rua entram na sala. Uma buzina forte. O menino, num salto, está de novo junto à janela: “Não é ele, mãe”. Ela disfarça, perguntando se ele já abriu o Kinder Ovo dos Minions. “Sim”, ele diz, depois desce do sofá, numa corrida vai ao quarto, volta abraçado aos ovos que o coelhinho trouxe durante a noite. “Eu me comportei bem né, mãe? Nem chorei nem fiz manha”.
O menino espalha o seu precioso tesouro pelo chão, se empolga, a mãe incentiva, se junta a ele, faz perguntas, inventa histórias, pede um pedaço das gostosuras. O menino a serve na boca, ela faz de conta que morde os dedinhos, ele solta boas risadas. Ela quer que ele se esqueça da espera. Quer que ele sinta-se feliz. Quer que ele seja completo dentro daquele possível. Quer. Quer. Quer. Puxa vida como ela quer.
Novos barulhos chegam da rua. Uma freada. Um alarme de carro. O menino abandona os brinquedos e doces que encomendou ao coelhinho e se encosta na vidraça. A mãe suspira, anda pela casa. Não resiste e dá uma espiada pela janela. Ela sabe que são motivos diferentes, mas é a mesma espera. Uma dolorida e injustificável espera que vem se arrastando pelos dias.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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