
O STF não conhece o Skype
Gilmar Mendes esteve em Portugal para participar do VI Fórum Jurídico de Lisboa. O evento, que ocorreu entre os dias 3 e 5 de abril, foi co-organizado pelo Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o magistrado é sócio.
Porém, enquanto ministro do Supremo Tribunal Federal, Mendes também precisava comparecer à sessão em Brasília para o julgamento do habeas corpus preventivo do ex-presidente Lula. A votação foi marcada para o dia 4.
A solução encontrada pelo membro da corte gerou manchetes nos principais jornais tupiniquins. Ele retornou ao Brasil, compareceu ao plenário, foi o segundo a votar e saiu às pressas para seguir, novamente, a solo lusitano. Houve até quebra de protocolo. Pelo regimento interno, Mendes seria o oitavo da lista. Porém, nesse caso, perderia o voo das 17h e ficaria impedido de prestigiar o encerramento do Fórum.
O ministro negou que sua passagem aérea tenha sido custeada pelo STF. Porém, recusou-se a dizer à imprensa quem bancou o bilhete. Quando um repórter da Folha de S. Paulo questionou-o sobre o fato, a resposta foi enérgica. “Devolva essa pergunta a seu editor, manda ele enfiar isso na b…”, comentou Sua Excelência.
Independentemente dos custos e da pessoa que tenha arcado com a viagem relâmpago – e esperamos que a conta realmente não tenha saído dos cofres públicos –, houve um esforço desmedido, quase extravagante, para estar cá e lá. Uma viagem de Brasília a Lisboa dura, no mínimo, nove horas. Entre ida e vinda, Gilmar Mendes gastou três terços de um dia inteiro. Isso sem contar o jet lag, mal-estar decorrente da diferença de fuso horário.
Enquanto ocorriam as palestras do evento jurídico, o magistrado atravessava o Atlântico apenas para discursar, por cerca de uma hora, a seus pares. Depois, abandonou o julgamento pela metade, sem ter ouvido o voto dos colegas nem ter participado de boa parte do fórum de além-mar. Um ato meio deselegante – e contraproducente.
Longe de mim opinar sobre as prioridades e as responsabilidades de tão notória figura. Apenas acho que tanto malabarismo poderia ser resolvido com uma simples videoconferência. Uma chamada via Skype, que fosse. A prática é comum em bancas de doutorado, congressos acadêmicos e reuniões de multinacionais. O convidado não precisa cruzar continentes nem comprometer um dia inteiro de sua agenda. Poupam-se tempo, energia e recursos financeiros.
No entanto, reconheço que essa minha preocupação não passe de um devaneio tolo. Inovação tecnológica para quê? O salário de um ministro do STF é de R$ 33.763,00! Se quiser, o sujeito pode pagar, do próprio bolso, ida e volta à Europa todo mês. Não precisa recorrer ao computador para otimizar os compromissos da agenda. Pode dar-se ao luxo de atuar com morosidade e ineficiência, tal como a máquina pública acostumou-o a fazer.
O povo que se preocupe com produtividade. Os jovens que se virem para trabalhar dobrado e quitar os boletos até o dia 30. E, se não puderem viajar, que se contentem com o Skype. Sai mais barato.
Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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