Roseli Santos
Esta postagem foi publicada em 6 de abril de 2018 e está arquivada em Roseli Santos.

No escurinho do cinema, por Roseli Santos

No escurinho do cinema

A Arábia Saudita anunciou que vai inaugurar seu primeiro cinema no dia 18 de abril, em Riad. Pensem nisso, “o primeiro cinema”, em 30 anos, para quem nunca imaginou essa possibilidade, em especial as mulheres de um país que as oprime em quase tudo, e os jovens, a maioria com menos de 25 anos, que cresceram sem nunca terem assistido a um filme do circuito comercial, desses, que a gente pode ver todos os dias na tela da TV, na Internet e, claro, nos cinemas do mundo todo.

Cinema é como um confessionário, um santuário, um divã. Um local inviolável, onde nos resguardamos da vida real ou dela nos aproximamos ainda mais para tentar compreendê-la. Redescoberta e fantasia, paixão, medo e alegria. Sonho e imaginação. Ali, na penumbra de pequenas ou grandes salas, exibem nossas entranhas, nossa coragem, nossas fraquezas, nossas glórias e nossos fracassos. Quadro a quadro, em silêncio, nos desnudam quando as luzes se apagam.

Abençoados somos nós, acostumados e incentivados desde muito jovens a ir ao cinema nas cidades aqui da região, num tempo em que a maioria dos municípios investia nisso e tinha suas próprias salas de exibição. Taquara, em especial, chegou a ter dois cinemas, mas era para o Cine Cruzeiro que convergiam crianças, jovens e adultos de todo o Vale do Paranhana para assistir aos lançamentos cinematográficos em matinés, aos domingos à noite ou em sessões dirigidas para públicos distintos, às terças ou quartas-feiras, se não me engano, quando a classificação era proibida para menores.

Tinha filme pornô, mas tinha também a noite do “belo sexo” (com entrada gratuita para as mulheres, me parece). Isso hoje, imaginem, já seria motivo de protestos e discussões acaloradas sobre gênero em todas as redes sociais.

Aos poucos, as salas de cinema sumiram aqui da região, engolidas pela praticidade e facilidades da TV, dos videocassetes, dos DVDs, TVs por assinatura e, mais recentemente, pelos canais de streaming. As grandes salas de cinema ainda existem, claro, instaladas em cidades âncoras bem maiores e capazes de atrair, ainda, milhares de telespectadores, dependendo da produção.

Mas não é a mesma coisa que ter um cinema na rua principal, na esquina da tua casa ou ali na Sebastião Amoretti, com capacidade para cerca de 700 pessoas. Era uma festa, um acontecimento, um evento único que nenhuma Netflix vai apagar da nossa memória.

Agora tudo é bem mais fácil e até já conseguimos assistir a todos os lançamentos pela Smarth TV 4k ou pela internet, o que é uma maravilha, mas, infelizmente, sem aquele gostinho de bala “7 Belo” ou de bala “Mocinho”.

Perdemos algumas coisas boas, sim. Em compensação, nos livramos das bolinhas de gude que rolavam pelo corredor do cinema, do barulho do despertador e dos gritos no meio da cena mais importante do filme, dos ovos que, eventualmente, sobrevoavam nossas cabeças e do lanterninha sempre “ligado” que terminava rapidinho com aquilo tudo com um facho de luz na cara da gurizada ou interrompendo a projeção até que todos se aquietassem.

Parece coisa de cinema, mas isso já é outra história.

Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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