Crônica dum tempo distante
Abri a torneira da pia do banheiro e deixei a água escoar sobre minhas mãos. Era reconfortante. Também gostei de ouvir o barulho d’água irrompendo a quietude do lugar. Olhei meu rosto no espelho fixado num desses armários brancos, onde quase sempre as pessoas guardam remédios pra dormir, pra acordar, pra caminhar, pra respirar. Mas naquele armário não tinha nada disso. Somente um solitário sabonete sem marca, com nome do hotel impresso num plástico incolor. Continuei olhando pra mim mesmo sem imaginar que, tantos anos depois, a cena triste e deprimente iria ser descrita numa crônica que seria lida por pessoas desconhecidas e que talvez se perguntassem: “mas que diabos esse cara fazia ali e quando foi isso?” Foi há bastante tempo. Eu estava muito longe. Sozinho num quarto de hotel barato esperando algo acontecer. Qualquer algo que justificasse tanta solidão. Tanta saudade. Tanta birra.
Então fechei a torneira. Saí do banheiro. Sentei na beirada da cama, milimetricamente colocada no meio do aposento. Os Braços cruzados. Tinha um ventilador de teto que barulhava, como se a qualquer momento fosse despencar sobre minha cabeça e a única janela, por onde entrava o ar da noite, também atraía a mosquitada zumbinzando uma cantiga infeliz. Não tinha TV. Nem frigobar. Nem telefone. Passava o tempo lendo crônicas dos jornais velhos que recolhia sobre os balcões dos bares ou nas calçadas. Também lia os classificados procurando um emprego melhor. Sempre procurava um emprego melhor. Todavia, nisso eu não estava sozinho. Eram muitas as pessoas disputando cada vaga que aparecesse e que pudesse ser alardeada como “um emprego melhor”.
Eu estava muito longe mesmo. Estava em 1987. Tudo parecia melancólico feito flores murchas. Via os olhares das gentes que só queriam vencer a falta de dinheiro. Era uma ideia fixa. E me afastava das pessoas e de suas ideias fixas. Eu voltava pros jornais velhos. Os jornais me davam tudo o que precisava: Conjuntura política. Análise financeira. Previsão do tempo. Horóscopo. Suplemento cultural. E a triste crônica da raça humana escrita diariamente à base de violência, dor e desespero. Todos os dias. Em letras garrafais. Lá estava a violenta história da humanidade em evolução.
E naquela terça feira, no fim do dia 18 de agosto, li sobre a morte dum poeta chamado Carlos Drummond de Andrade, ocorrida às 20h45min da noite anterior. Nas edições seguintes li muito sobre o poeta. Todos queriam ficar íntimos já que ele estava morto. Saberiam seus dramas. Sua influência. Seu modernismo. Eu li a poesia do poeta. Entendi que apesar de tudo o que andava acontecendo, era possível ser lírico-poético-romântico. E ouvir o barulho do trem na hora do amor. Apreciar um cigarro na madrugada. Uma lata de cerveja bem gelada.
Eu segui lendo as crônicas nos jornais velhos. Mas elas já não me punham medo nem desesperança. O mundo não parecia feio como escreviam. A vida, ela podia ser tão boa quanto uma mulher que te abandona, depois se arrepende. E eu começava a pensar como um poeta.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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