O preço da olhadinha
Procure lembrar-se da última vez que você pediu desconto no preço de uma consulta médica. Talvez não tenha ocorrido nunca. Dificilmente alguém tem coragem de negociar valores com profissionais da saúde. Os caras estudam por anos, investem uma grana em congressos e especializações… Natural que cobrem quanto acharem conveniente. É o custo de um atendimento de qualidade.
A mesma lógica se estende a outros serviços. Encanador, eletricista, fotógrafo, desenvolvedor de sites, mecânico, tradutor, revisor de textos, músico: todos esses profissionais vivem do conhecimento que adquiriram e da experiência que acumularam com projetos anteriores. Porém, sempre tem cliente que chore aquele “precinho camarada”.
Enquanto profissional liberal, já recebi muita proposta de trabalho indecorosa. A história se repete com colegas da indústria criativa e, certamente, com representantes de outras áreas. Basta apresentarmos o orçamento para ouvirmos uma das seguintes lamúrias (tomo a liberdade de incluir as réplicas, a quem interessar possa).
“Acho que podemos melhorar esse valor”. Como assim, criatura? Abatimento só é melhor para quem paga, não para quem recebe. Poupe-me desse eufemismo cretino.
“Ah, mas tem bastante volume de trabalho”. Justamente! A mercadoria de quem presta serviços é o tempo. Uma hora trabalhada vale tanto quanto outra hora trabalhada. Não conseguimos produzir minutos a mais no dia para distribuí-los na promoção. Logo, quanto mais longa a tarefa, mais cara ela sairá.
“É uma revisão simples. Só uma olhadinha para ver se o texto está legal”. Sim, e o seu dentista deu “só uma limpadinha” nos seus dentes, mas nem por isso cobrou menos. Você não imagina quanto estudo é necessário para um profissional entregar bons resultados com rapidez.
“Este é só o primeiro job. Haverá outros”. Nesse caso, apelo à sabedoria popular: mais vale um na mão que dois voando.
“Fulaninho faz pela metade disso”. De novo, vou ter que recorrer a um ditado: cada um sabe onde o próprio sapato aperta. Se Fulaninho está feliz com tão pouco, bom para ele. Pode contratá-lo. Só não me venha reclamar que o trabalho final ficou aquém do esperado.
“Na verdade, não temos verba disponível, mas seu nome aparecerá nos créditos. Você ficará conhecido”. Obrigado, mas visibilidade não quita meus boletos.
E a lista continuaria, mas já deu para ilustrar bem. No fim das contas, trata-se de respeitar o talento do próximo. Se você não tem conhecimento, habilidade técnica ou tempo para realizar um serviço, não menospreze o trabalhador. Abra a carteira e pague. Ou prefere barganhar um descontinho camarada com seu médico?
Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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