O homem dos números
E foi num fim de tarde do mês de maio que a mãe bateu as botas, isso, lá num século que nem existe mais. Achou estranho pensar na falecida, talvez tenha sido os trejeitos daquela velha senhora chamando o adolescente servindo suco que o fez lembrar. Notou que o adolescente tinha destreza, levava os copos cheios numa bandeja erguida à altura da cabeça, enquanto andava entre as mesas e distribuía sorrisos aos velhos. Os lugares todos ocupados. Havia burburinhos e certa ansiedade nos olhares dos senhores e das senhoras. Queriam começar logo.
Estava posicionado junto ao balcão e esperava autorização para iniciar. Olhou através da janela, que tinha os vidros um pouco sujos com marcas de mãos, decerto de crianças ou adolescentes em brincadeiras cheias de alegrias, e fitou o sossego da rua lá fora. Era uma tarde quente de outono e a cor do sol esparramado pelas calçadas e árvores convidavam lembranças a saírem de seus esconderijos. Mas ele não queria isso. Trouxe olhar e pensamentos de volta e os lançou sobre a sala do Centro Comunitário, onde estavam os velhos reunidos pra sessão de bingo. Todos debruçados sobre suas cartelas. Onde estava ele também. Parado. De pé.
O rapaz, depois de distribuir os copos com suco nas mesas, aproximou-se dele. Mostrou o sorriso metálico do aparelho nos dentes e largou uma garrafa de água mineral sem gás sobre o balcão em sua frente. A organizadora chegou trazendo a gaiola arredondada cheia de pequenas bolas numeradas e uma cartela de madeira, com pequenos côncavos também numerados e também os deixou sobre o balcão. Estava tudo em sua frente. Inclusive os velhos nas cadeiras ao redor das mesas. Em silêncio. Alguns olhavam pra ele.
A mulher disse que era com grande alegria que recebia novamente os moradores do Asilo Lar Fraterno para o tradicional Bingo de Maio. Depois ela citou alguns nomes ligados à prefeitura, à assistência social e ao Clube das Mulheres Cuidadoras e talvez tenha citado algum versículo bíblico ou trechos de livros de autoajuda, mas ele não prestou atenção em nada disso. Olhava o líquido cor de vinho dentro dos copos. Ficou se perguntando aonde esteve durante esse tempo todo. Às vezes amontoamos os dias e nos esquecemos de espalhá-los novamente. Quando nos damos conta, eles viraram uma coisa só.
Então a mulher disse o nome dele, disse com ênfase, como se ainda fosse importante pra alguém. Como se alguém quisesse lembrar. Alguns velhos arriscaram um olhar lânguido e ensaiaram tímidos aplausos. A mulher voltou a falar, mas agora as palavras ecoavam dentro da cabeça. Ouviu perfeitamente quando ela disse quem era o mais novo morador do Lar Fraterno, e por ser um artista tão famoso, cabia a esse novo morador soletrar os números do bingo.
Olhou as mãos apoiadas no balcão. As rugas as verrugas as manchas. Notou que tremia. Bobagem, pensou. Depois de tantas apresentações ao longo da vida, isso é bobagem, tornou a pensar. A mulher girou a gaiola, as bolinhas rolaram dentro até que uma caiu. Juntou-a e a entregou pra ele. O homem segurou a minúscula bola entre o polegar e o indicador. Observou o número sorteado. Entendeu que precisava iniciar o ciclo de sorte para uns e de azar para outros. Mas preferiu ficar calado. Apenas olhando praquele número. Como se fosse, assim, um marcador de tempo.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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