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Esta postagem foi publicada em 20 de julho de 2018 e está arquivada em Tempo Contado.

A volta de Lindomar Antunes, por Doralino Di Souza

A volta de Lindomar Antunes

Caminhava à margem da rodovia desde cedo. O sol era forte e os caminhões, quando passavam a toda, deixavam para trás aquela baforada quente. Vinha despreocupado, mas sabendo aonde ia. Na mão esquerda, dentro duma dessas sacolas plásticas de supermercado, carregava uma bola de futebol. Logo avistou os barracos. Sentiu cheiros e barulhos conhecidos. Parou na beirada do asfalto, olhou no entorno, a poucos metros dali o casebre na baixada. A velha sentada na frente. Desceu pela trilhazinha, entre macegas e lixos amontoados, saltou sobre o córrego de esgotos e alcançou a viela. Sentiu orgulho ao notar que o cercado feito de paletes ainda estava no lugar. Sinal de respeito, decerto.

Abriu o portão de madeira e entrou no minúsculo pátio. A velha tomava chimarrão lagarteando sob o sol, quando o viu, gritou, “Não tem lugar pra ti aqui, não tem, não”.  Ele fitou a senhora, ela voltou a grunhir, “Não tem lugar. O telhado do quarto caiu. É melhor se ir embora”.  Ele permaneceu calado, nisso, observou a criança brincando na terra, protegida pela sombra do casebre. Foi até lá e acocorou-se ao lado do pequeno. O guri empurrava um carrinho na estradinha feita com as mãos. Fazia barulhinho com a boca e parecia estar num mundo só dele. O menino olhou para o homem, depois voltou a movimentar o brinquedo na terra.

Chamou a criança pelo nome duas vezes. Ela olhou. Ele mostrou a bola. A criança sorriu e estendeu a mão. Ele entregou a sacola ao menino que escancarou uma risada e saiu saltitante com o presente. Quando me levaram era recém-nascido, pensou o homem, agora deve ter uns três anos. É um belo guri, concluiu. Depois olhou o lugar em volta. Tudo igual. Os montes de lixo, o papelão e o ferro-velho, as carroças e os cavalos, os casebres amontoados, a criançada e os cachorros. Esses políticos de merda roubam pra caralho e não fazem nada pela gente. E a polícia vai atrás é de quem pega uns fios de cobre pra garantir comida. Uns bostas, isso sim.

Levantou-se e parou perto da velha. “A Filomena tá no trecho, precisa arrumar algum, tem o guri pra criar”, a velha foi dizendo, enquanto enchia a cuia com água quente, “Ela tá com saudade, falou noutro dia, mas tu não pode ficar, vá simbora”. Ele sacou o revólver que trazia na cintura e exibiu pra velha, ela deu de ombros, depois sorriu, arreganhando a boca desdentada e depois ofereceu o chimarrão. O homem também sorriu, todavia, de jeito melancólico, daí baixou a arma, pegou a cuia da mão da velha e sentou-se num banco de madeira. Ficaram lado a lado.

O homem sorvia o chimarrão calmamente enquanto admirava o revólver e pensava num modo de seguir com a vida. A velha assobiava uma antiga canção da sua infância, com expressão suave no rosto. O guri chutava a bola e os cachorros corriam para pegá-la. O sol continuava no curso de todos os dias e na estrada de asfalto o constante vai e vem dos carros, ônibus e caminhões era convite para retomar antigos hábitos. Parece que o jeito é voltar à ativa, disse pra si, e olhando pro chão. Depois encarou a velha: Fica com Deus, mãe.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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