O novo sempre vem
Dia desses uma amiga postou uma foto com sua filha recém-nascida. Eu nem sabia que a mãe estivera grávida, pois ela não havia mencionado o assunto em suas redes sociais. Preferiu manter o “segredo” entre os familiares e preservar a intimidade do momento – atitude compreensível, numa época de tanta superexposição.
Outra amiga decidiu compartilhar cada etapa de sua gestação. Fez contagem regressiva, anunciou o nome do bebê antes do nascimento e publicou várias imagens de roupinhas e sapatinhos. Compreensível, também: a alegria pela chegada do primogênito era tanta que ela queria dividi-la com o mundo inteiro.
Talvez esses dois casos ilustrem o que pesquisadores do grupo Gartner chamam de ciclo das tecnologias emergentes. Após o gatilho de inovação – quando surge um site de rede social, por exemplo –, muitas pessoas incorporam essa novidade ao dia a dia. Porém, as expectativas infladas sucumbem ao fosso da desilusão: no fim das contas, o “novo” não era tão revolucionário assim e pouco mudou a vida. Muitos abandonam o serviço, e, somente então, entende-se quais reais benefícios a sociedade pode tirar daquele site.
O Facebook vem registrando perda de usuários. Houve quem se desiludisse com a ferramenta, decidindo manter uma distância saudável – como a grávida 1 deste texto, possivelmente. Ainda assim, a plataforma se mantém como um dos principais canais de comunicação do planeta. São 2,13 bilhões de participantes, segundo dados oficiais. Tem gente vivendo a euforia da novidade. Tem gente que já superou as desilusões e descobriu a importância das redes sociais em sua vida. Eu não saberia dizer em qual grupo a grávida 2 se enquadra.
Vai ver, ainda, que minhas amigas representem dois lados de um mesmo fenômeno: a constante crise que travamos entre o antes e o depois.
Reflitamos sobre a História recente. Tivemos a urbanização e a corrida espacial. Em seguida, vieram os hippies pregando menos consumismo e mais contato com a natureza. Mais tarde, nos anos 1980, a informática comercial despontou, junto com filmes sobre robôs e espaçonaves. Veio um revival da era “paz e amor” na década seguinte. A virada do milênio trouxe a hiperconexão global. Agora, tem gente fazendo horta em apartamento e tentando desligar o smartphone pelo menos aos fins de semana.
O que percebo é um constante vaivém entre um passado idílico e um futuro utópico. Quando a tecnologia nos assoberba, retomamos os costumes tribais de épocas anteriores. Quando o ambiente parece monótono demais, buscamos a velocidade e a praticidade das inovações técnicas. De todo modo, nunca estamos satisfeitos.
Etimologicamente, “crise” significa uma mudança que leva à evolução (não é à toa que a lagarta vire crisálida antes de se transformar em borboleta). Ou seja, o conflito e a insatisfação fazem parte da existência. São elementos que nos movem adiante. Porém, como a natureza opera em ciclos, às vezes o inédito é apenas uma reinvenção do antigo. O novo sempre vem, mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, diria Belchior.
Minhas amigas deram continuidade à roda da vida. Se seus filhos serão mais “pé no barro” ou mais “mão no celular”, só o tempo dirá. O provável é que pendam entre um extremo e outro, surpreendidos pelas velhas novidades que aparecerem.
Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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