Como nossos pais?
Neste domingo, a data é alusiva ao Dia dos Pais. Seria um domingo igual a todos os outros, não fossem os apelos comercias que transformam a data em algo hipervalorizado, repleta de clichês, por mais que tentem “modernizar” o tema.
Vale para outras datas comemorativas do calendário ao longo do ano, também, cada vez mais repleto de momentos obrigatoriamente festivos, rentáveis e, forçosamente, felizes, nas campanhas que ditam desejos e expectativas ao público desavisado.
Até os mais antenados e esclarecidos caem nesta cilada subliminar. É dia de alguma coisa e precisamos lembrar disso e, de preferência, comprar com alguma mercadoria o carinho que não tem preço.
Por isso, hoje, invoco a necessária reflexão sobre quem são os verdadeiros pais e a quem rendemos homenagens neste domingo. Aos que nos criaram, educaram e nos colocaram neste mundo para seguirmos autônomos, construindo nosso caminho independentes, com todos os erros e acertos que um ser humano pode ter, ou ao estereótipo inatingível forjado pela mídia, que infantiliza adultos incapazes de aceitar a orfandade iminente, ainda que de pais vivos?
E diante do assombro que é viver neste mundo que virtualiza o real, há quem ainda surpreenda e se atire na piscina, sem saber se tem água, para concretizar sonhos inimagináveis, bem longe do realismo fantástico apresentado em campanhas publicitárias que vendem o que nunca existirá de fato.
Refiro-me a essa nova geração de pais, nem sempre jovens, mas abertos e motivados pela coragem de acolher como filhos legítimos os que a vida rejeitou, por motivos que não nos cabe julgar. Exemplos que fogem ao inconsciente coletivo e ao imaginário idealizado por nós ou por nossos pais, talvez, mas que transformam a paternidade em algo mais, especialmente para quem adota uma, duas ou até mais crianças por amor e solidariedade, compaixão e vontade.
Não são como nossos pais legítimos, e a eles a nossa eterna gratidão, obviamente. Penso se não seriam eles, esses pais adotivos, tão melhores quanto os demais porque da vida não aceitaram o óbvio e, certamente, estão muito acima das convenções sociais, por opção, enfrentando, muitas vezes, excessivos obstáculos burocráticos para atingir esse objetivo.
Já para esses pequenos seres adotados, todos os dias da semana serão Dia dos Pais, como convém a nós recordamos, também, enquanto os temos por perto. O melhor presente é a vida, impossível de ser espelhada com fidelidade pelos comerciais de TV, que até servem para incrementar as vendas no comércio, mas nunca traduzirão o nobre gesto da paternidade “por livre e espontânea adoção”.
Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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