
Desassossegos de um velho garçom
O garçom disse que o cliente decerto era fotógrafo, ou era escritor. Disse assim, de supetão, enquanto largava a Original e o copo na mesa. O cara ficou curioso com a afirmação, já estivera outras vezes naquele boteco, mas nunca conversou sobre sua vida, eram os assuntos de sempre; a temperatura da bebida, o movimento sazonal nos dias da semana, o corpo bonito da mulher passando na rua.
O garçom ficou calado enquanto enchia o copo, olhos fixos na espuma pra saber o momento exato de parar. Olhou para um lado, depois para o outro, verificou que não o chamavam em nenhuma das mesas, largou a garrafa junto ao copo e disse que trabalha há muito tempo como garçom: “A gente aprende a observar as pessoas e definir um perfil.” Depois disse que fotógrafos e escritores nunca sentam de costas pra rua, pedem mesa num canto, de onde têm visão ampla do lugar, como se estivessem esperando alguém chegar repentinamente. “Isso é coisa da profissão, eles ficam olhando no entorno, buscando um bom ângulo, ou um bom personagem, no caso dos escritores.”
Falava olhando pra baixo, como se fosse exigência da casa, já não era um homem jovem e estava visivelmente cansado, não esse cansaço que a gente sente depois dum dia de trabalho, era o cansaço da vida, dos anos que haviam passado, quem sabe, num piscar de olhos. O cliente pegou o copo, saboreou um gole, depois largou sobre a mesa, se ajeitou na cadeira, feito quem busca a melhor posição pra ouvir uma história, depois sinalizou com a cabeça ao velho homem. Continue.
Houve certa surpresa, seguida de nostalgia no rosto do garçom, ele deu uma pigarreada, olhou novamente ao redor, e disse que nasceu e cresceu nas margens do Rio Uruguai, lá nas lonjuras de Santa Catarina e disse que pescou muito Dourado naquelas águas. Sua conversa tinha aquele jeito de quem descobre que gosta de falar, não precisava procurar palavras, não havia espaços vazios. As palavras estavam todas nele, e saiam calmamente. Depois falou das namoradas que teve por lá, e sobre uma, em especial. “Era bom fazer amor dentro duma canoa no balanço da correnteza.” Isso era bom, repetiu.
O velho garçom tamborilou com o polegar da mão direita, que estava apoiada na beira da mesa e ficou olhando aquilo, seus olhos talvez vissem outras coisas, num outro tempo. Então suspirou, anotou o valor num papel que destacou do bloco de notas e o deixou debaixo do copo. A gente nunca sabe como uma história vai terminar quando ela começa, ele disse, depois foi atender uma moça que sinalizou.
O cara continuou bebendo a cerveja. Depois pagou a conta e saiu. Antes de entrar no carro olhou em volta, o final de tarde se mostrava estranho e abafado e soprava um vento morno que era sinal de temporal. A estrada de asfalto estava mormacenta e os carros pareciam deslizar sem pressa. Pensou que se fosse fotógrafo iria registrar as matizes daquele céu à espera de chuva e se fosse escritor iria escrever sobre os desassossegos do velho garçom. Raciocinou um pouco sobre o rumo que iria seguir. Depois ligou o carro e se foi.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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