Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 14 de setembro de 2018 e está arquivada em Tempo Contado.

O Bico, por Doralino Di Souza

        O Bico

A menina até pensou em entregar a chupeta no natal. Deixar embaixo do pinheirinho. O Papai Noel leva e deixa montão de presente, a mãe tinha dito. O pai desconversou, falando que não precisava, ainda. E a menina continuou chupando o biquinho toda feliz. Depois veio a páscoa. É hora de largar o bico, o coelhinho vai levar. Ele, de novo, titubeou:

– Ainda não precisa largar – a frase causando alegria na criança e indignação na mãe.

Precisou ouvir vários argumentos da esposa. Que os dentes serão prejudicados, a fala pode ser comprometida, que o bico cai no chão e vai pra boca sem ser lavado. Todavia, nada o fazia mudar de opinião: – Ainda não precisa largar.

Como pode ser hora de largar o bico. Se ainda ontem saiu pela noite à procura de farmácia para comprar a preciosa chupeta que acalmaria o choro da filha recém-nascida. Pai e mãe sendo atenção às palavras do médico. A filha em aconchego gostoso nos braços da mãe. O bico, após as mamadas fortes da criança no seio alimentador, era cúmplice no sono profundo e sereno.

Depois em casa. Cólicas eram as causas do choro? E tome embalar a miúda no colo. O bico acalmava mais que o embalo. Tão grande  emoção na calmaria sendo presença. Criança de novo em sono profundo, deixada no berço. O beijo silencioso. O observar quieto à porta do quarto.

E mais depois. Bico perdido outra vez? A filhinha em dengo, buscava o socorro no pai. Procurar o bico pela casa, entre brinquedos, debaixo da cama, em todos os cantos. Aventura maravilhosa. E quando do achado! O abraço forte, com gratidão legítima. Sorriso único.

Então foi para o prézinho. Não vai ir pra escola e continuar chupando o bico, era a fala da mãe sendo autoridade. E combinação entre pai e filha:

– O bico fica só durante a noite, depois das historinhas contadas. – A menina em abraço feliz.

Para que ter pressa em deixar essas pequenas maravilhas. É certo que vai crescer, vai largar, porém, enquanto der que fique do jeito que está. Melhor mesmo é degustar cada instante dessa vida cíclica. Vida rápida feito trem-bala.

Aí veio a menina. Aproximou-se, numa quietude triste. Entregou o bico:

– Agora vou ter de largar – E mostrou um sorriso banguela, identificando que o primeiro dente de leite acabara de cair.

Ele abraça a filha, sabendo que a ordem natural da vida segue, alheia a qualquer vontade.

– Tá tudo bem- Ele diz, mas não consegue segurar o choro que se apresenta.

 

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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