Por que acreditar nas pesquisas eleitorais?
Ainda me lembro das eleições de 2010. Uma amiga minha estava certa de que Marina Silva avançaria ao segundo turno, pois todas as pessoas que ela conhecia votariam na candidata. A presidenciável ficou em terceiro lugar.
Não é difícil compreender o que causou a surpresa da guria. O círculo de convivência dessa minha amiga estava restrito a seus familiares e colegas de faculdade. Era gente com um estilo de vida parecido e ideologias em comum. Natural que todos tendessem para o mesmo caminho político. Fora da bolha do Facebook, porém, as falas são mais diversas.
Oito anos depois, a história só piora. Dia desses me deparei com uma corrente de WhatsApp questionando a credibilidade do Ibope. O texto continha um link para uma enquete na qual os participantes poderiam escolher seu candidato favorito. Pretendia-se realizar uma pesquisa de opinião paralela.
Preciso, mesmo, dizer onde estava o equívoco? Pois então: o site não monitora os respondentes. Qualquer indivíduo pode preencher o mesmo questionário várias vezes. Além disso, tampouco há garantia de que a página atingirá todas as camadas da população. Cidadãos sem acesso à internet, por exemplo, ficam de fora. Portanto, os dados obtidos se mostram bem afastados da realidade. São apenas mais uma câmara de eco para reforçar teorias conspiratórias.
Institutos como o Ibope e o Datafolha, por sua vez, seguem critérios científicos para legitimar as pesquisas de intenção de voto. É necessário entrevistar sujeitos de variados perfis: homens e mulheres, pobres e ricos, pós-graduados e analfabetos. O trabalho ocorre em centenas de localidades do território brasileiro. Desse modo, os grupos contemplados conseguem representar os diversos estratos sociais do país.
Claro que pode haver falhas no processo. A margem de erro está aí, justamente, para demonstrar que nenhum prognóstico é 100% seguro. Ainda assim, é mais sensato acreditar nas informações oficiais que nas correntes de WhatsApp.
Se tu defendes a ideia de que todos os centros de pesquisa e todos os veículos de imprensa são “comprados” pelo partido adversário, sugiro conversares com alguém que vote nesse opositor. É provável que o sujeito fale a mesma coisa, mas ao contrário: os correligionários dele são os injustiçados; os teus, os protegidos da mídia.
Ocorre que eleição não é crença, é estatística. Os levantamentos do Datafolha existem para que não nos ceguemos com nossas próprias convicções. Se ignoramos os números, podemos muito bem acreditar em duendes, em dragões alados ou, quem sabe, na vitória do Cabo Daciolo. Só não dá para se surpreender quando o resultado for diferente daquilo que imaginávamos.
Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
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