Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 16 de outubro de 2009 e está arquivada em Caixa Postal 59.

CAIXA POSTAL 59

Mau tempo? Bom tempo
para pausas, reflexões e ações

Hoje à tarde, quando me preparava para iniciar mais uma aula junto aos meus pequenos alunos da 1ª série, fiquei por um bom tempo observando como eles se comunicavam freneticamente entre si. O motivo de tal alvoroço foi a ventania do dia anterior, que destelhou muitas casas do bairro e deflagrou o medo junto às crianças.
“Profe, eu pulei a janela para ficar na casa da minha dinda, pois as telhas voaram todinhas e eu achei que iam todos morrer” – disse um dos meninos. “Eu acendi velas com minha mãe e minha irmã e contamos histórias sobre Jeová” – disse outro. “Nós rezamos muito e meu tio ajudou uma menininha que passou e pediu socorro” – contou uma das meninas.
Enternecida por ver aqueles pequenos porta-vozes da comunidade onde atuo como professora e consternada ao lembrar das famílias do bairro que estiveram a poucos dias alojadas em nosso ginásio, fiquei a pensar na implicação desses fenômenos da natureza em nossa rotina. Natureza que nos dá mostras de sua força implacável durante esses eventos.
Acontecimentos que nos mobilizam emocionalmente, nos fazendo parar em meio ao ritmo frenético de nossos dias. Que nos fazem colocar as mãos na consciência, elevando-as aos céus, alarmados diante de tamanho poderio e ao mesmo tempo de espantosa vulnerabilidade. Nessas ocasiões, somos movidos não pelo imediatismo e individualismo característico de nossos tempos, mas pela urgência de acolher o próximo.
Sob essas condições, ficamos iguais…no mesmo barco, imersos na nossa finitude, na nossa fragilidade. É aí que acionamos nossas crenças, mobilizamos nosso ser e pensamos no que temos…de fato. Ganhamos força quando nos unimos para recobrir os telhados que voaram pelos ares, a exemplo de como reunimos esforços para transpor as dificuldades de nossa vida cotidiana. Reconhecemos em todo transeunte um ser igual a nós, exposto às intempéries da vida.
Somos obrigados a parar, esperar “o tempo colaborar”, prestar auxílio, chegar atrasados em função das estradas interrompidas, dos obstáculos no caminho…ficar onde estamos. Contrariando a maré de competitividade, pró-atividade, globalização, modismos, ficamos à mercê da natureza. Esses eventos são repercussões das ações humanas sobre o mundo, para com a natureza, mas nos oportunizam também refletir sobre o modo como nossos atos tocam as pessoas e o que temos feito a respeito.
Bons ventos ao povo taquarense, à gente de toda terra! Que saibamos unir esforços, dividir angústias para diminuir nossas agruras. Mesmo que o tempo feche, que não nos fechemos para olhar ao próximo, para viver em comunidade e acreditar que “depois da tempestade, vem a bonança”, pois você pode se surpreender que “durante a tempestade pode haver esperança”.
Camila Roberta Lahm
Professora da rede pública de ensino e estagiária de Psicologia da Faccat

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