
Segunda feira na rodoviária
Naquela rodoviária o cheiro de abandono, ou, no mínimo, de esquecimento gradativo, pairava no ar. Decerto em outros dias incontáveis pessoas chegavam carregadas de sonhos, atitudes, ou fugas desesperadas, visto o tamanho da estrutura do lugar, com dezenas de lojas, bares, cafés e Box pra estacionar os ônibus. Todavia, como eu lhe disse, isso foi, já que hoje em dia a maioria das salas comerciais está fechada, e os veículos que chegam ou partem, carregam pouquíssimos passageiros.
Dá impressão de que alguma coisa afasta as pessoas. Ninguém mais permanece. A cada dia uma meia dúzia vai embora. Mesmo o angustiante cheiro de cigarro, que imperava, agora se faz de maneira tímida, e a algazarra dos balcões e das mesas dos bares, se tornou um murmuro lamentoso. O vendedor de rapadura, de refrigerante, de muambas eletrônicas, de bilhete da loteria, de jornais e revistas, todos desapareceram. Isto se deu pelo aspecto fantasmagórico do lugar, não pelo grande cartaz colado numa parede de azulejo proibindo a presença de vendedores ambulantes.
Completamente alheio a esse vazio, ou se fazendo indiferente, um cara permanecia quase imóvel, sentando num dos bancos de madeira grossa. O olhar perdido nalgum ponto invisível em sua frente. Além do cara, sentada um pouco distante, tinha uma mulher gorda com o rosto cheio de rugas e cochilava pendendo a cabeça para o lado esquerdo. Também havia uma mulher jovem, que amamentava no peito um bebê recém-nascido e um casal de adolescentes com os olhos vidrados nos telefones.
Nisso, foi chegando um daqueles carros-fortes que transportam valores, veio devagar, roncando alto, parecendo um rinoceronte amarelo e blindado, e estacionou num dos Box. Feito uma coreografia ensaiada, dois homens vestindo uniformes cinzas saltaram pra fora do carro. Com gestos firmes seguravam suas armas, como se pressentissem o eminente ataque do inimigo. Um terceiro homem saiu rapidamente, buscou num dos guichês de vendas de bilhetes, uma sacola marrom escura, e na mesma velocidade retornou ao veículo.
Sabe-se lá por que, nesse instante, o cara que, até então mantinha a perna esquerda cruzada sobre a direita, e o braço esquerdo apoiado na mochila largada no banco ao seu lado, levantou-se e deu alguns passos à frente. O cara olhou para um lado, depois para o outro, e saiu numa corrida ríspida em direção aos homens parados em frente ao carro-forte. Enquanto avançava, soltou grito com força: “Quero a parte que o mundo me deve seus filhos da puta”.
Não sei se foi reflexo instintivo, causado pelo medo, ou se foi o treinamento que fez com que os dois homens disparassem suas armas contra o cara. O estrondo seco ecoou. O cara se espatifou no chão. Gritos surgiram. O casal de namorados, munidos com os celulares, imediatamente começou fotografar e filmar. Pessoas curiosas apareceram. Um ônibus que deveria ocupar aquela área parou uns metros adiante. O ônibus estava quase vazio e as poucas pessoas a bordo lamentavam o transtorno da espera. O cara caído parecia combinar perfeitamente com o cenário de abandono da rodoviária naquela segunda feira.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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