Geral

Roteiro de filme: irmãos se reencontram depois de 30 anos sem contato

Caso aconteceu, de forma inusitada, no Hospital Bom Jesus em Taquara
Juntos, novamente, depois de 30 anos, os irmãos desejam não se separar mais. Foto: Jéssica Ramos/ Jornal Panorama.

Todos os dias pessoas vêm e vão, caminhos se cruzam, afastam e também aproximam histórias, ora semelhantes, ora distintas. E, às vezes, o que pode fazer toda a diferença é a atitude de observar – com atenção – cada detalhe. Miguel Boeira da Silva (66) e Seleste Boeira da Silva (59) que o digam. Os dois irmãos viveram, nesta semana, um reencontro esperado por cerca de trinta anos. E o estopim para que o evento pudesse acontecer foi o sobrenome de ambos.

Olhando os nomes escritos lado a lado, parece óbvio, mas o contexto da história não foi tão simples. O encontro dos irmãos aconteceu no Hospital Bom Jesus, de Taquara, onde eles entraram como estranhos, em datas diferentes, buscando apenas os cuidados médicos. O mais velho deles, Miguel, foi internado no hospital no dia dois deste mês, enquanto Seleste baixou 13 dias depois.

Afastados há décadas, segundo eles, sem contato algum, tampouco a certeza de que algum irmão estava vivo, o encontro deles poderia ser considerado improvável. Porém, no decorrer dos dias, a rotina do hospital acabou contribuindo para que a vida dos irmãos “Boeira da Silva” se unisse novamente. “A rotina diária das equipes de enfermagem demanda a conferência dos prontuários de exames de cada um dos pacientes internados. Esse procedimento é feito no início e também no final de cada novo plantão. Foi assim que a enfermeira Nicole de Moraes desconfiou que Miguel e Seleste eram parentes”, explicou a colega, também enfermeira, Luciana Moraes.

Equipe contou que o reencontro dos irmãos aconteceu devido a rotina de conferência do quadro dos pacientes internados. Foto: Jéssica Ramos/ Jornal Panorama.

Luciana contou que, ao desconfiar do parentesco dos pacientes, Nicole iniciou uma pesquisa sobre a família dos dois. Inicialmente descobriu que o nome das mães de ambos era o mesmo e, em seguida, passou a interrogá-los de forma que não percebessem o motivo. E, a esta altura, a equipe já criava expectativas, segundo o técnico de enfermagem Wagner Branco. “Cuidamos para não gerar uma confusão, caso não passasse apenas de uma coincidência. Mas foi tranquilo, pois ambos estavam em quartos separados”, relatou Luciana.

Para surpresa de todos, inclusive de Miguel e Seleste, os pacientes que chegaram à casa de saúde sem qualquer ligação, de fato eram irmãos. “Filhos do mesmo pai e da mesma mãe”, destacou Wagner Branco. Sendo assim, a equipe médica logo tratou de informá-los sobre a descoberta, abrindo a oportunidade de se reencontrarem.

A emoção do reencontro

Segundo seu Seleste, quando a enfermeira perguntou sobre a família dele e questionou se ele não tinha um irmão chamado Miguel, ele achou que se tratasse de uma brincadeira. Mas não perdeu tempo. “Eu confirmei que tinha um irmão com esse nome e ela disse que estava aqui no hospital e também havia contado a mesma história de vida. Não acreditei. Reuni minhas forças e corri para o quarto dele”, disse feliz.

Depois de se reencontrarem os irmãos foram deslocados para o mesmo quarto, no Hospital Bom Jesus. Foto: Jéssica Ramos/ Jornal Panorama.

Seu Miguel, um pouco mais debilitado de saúde, contou que ficou aguardando. Torcendo para que fosse verdade. “Eu confirmei a história que o Seleste contou para a enfermeira e, em seguida, fui surpreendido por ele. Veio aqui no meu quarto me encontrar. Até agora estou sem palavras. Deus sabe o quanto desejei esse momento”, disse.

Ambos contaram que, além dos dois, a família tinha outros quatro filhos. Mas, devido a uma tragédia, tiveram que se separar e nunca mais conseguiram contato um com o outro. “Nossa mãe foi atingida por um raio e não resistiu. Acabou falecendo. Foi uma situação horrível. Uma verdadeira tragédia”, descreveu seu Seleste. Com o olhar carregado por lágrimas, seu Miguel continuou a história: “Foi muito triste. O pai ficou com seis filhos pra criar sozinho”.

Mas a perda da mãe foi apenas uma parte da tragédia, segundo eles. Isso por que um ano mais tarde a família perdeu tudo o que tinha em um incêndio que atingiu a casa onde moravam. “Ali foi o fim da nossa família. O pai não tinha condições de nos sustentar. Nos separou para que pudéssemos sobreviver. Cada um foi doado pra uma família diferente, só o Miguel ficou com o pai. Mas não por muito tempo, pois o pai acabou falecendo em seguida também”, lembrou seu Seleste.

Seu Miguel disse que sofreu muito, dependendo dos favores de estranhos. Mas nunca desistiu de viver e sempre alimentou a esperança de rever os irmãos. Começou a trabalhar ainda quando criança, cresceu, casou, mas acabou não tendo filhos, em virtude de uma doença que a, hoje falecida, esposa tinha. Já seu Seleste disse que a vida não foi muito diferente da vida do irmão. “Minha vida foi trabalhar. Nunca casei, não tive filhos. Sentia muita vontade de reencontrar meus irmãos, mas sempre que tentei me perdi com informações desencontradas e acabei deixando como estava”, contou.

Agora ambos planejam o primeiro churrasco para comemorar o reencontro, mas enquanto não têm alta, aproveitam para cuidar um do outro no hospital mesmo. Foto: Jéssica Ramos/ Jornal Panorama.

Atualmente, ambos vivem sozinhos. Miguel, em Parobé, e Seleste no interior de Taquara. Unidos novamente, agora eles planejam um churrasco para comemorar o reencontro. Não descartam a possibilidade de morar juntos, para não se perder outra vez. “Trocamos contatos, endereços, e queremos conviver pelo resto da vida. Deus nos deu uma oportunidade maravilhosa”, disse seu Seleste.

E, se tratando de oportunidade, durante a entrevista ambos lembraram o ditado: “há males que vêm para o bem”, pois, mesmo afastados os irmãos acabaram exercendo a mesma profissão. E foi em virtude da exposição no trabalho que ficaram doentes e acabaram se encontrando no hospital, depois de longas décadas. “Sem saber um do outro, nós trabalhamos em pedreiras. É um serviço pesado. Maltrata muito a gente e aí acabamos adoecendo”, explicou seu Miguel.

Segundo eles, três irmãos já faleceram. Seu Miguel foi contatado para o velório deles pelas funerárias. Mas todos em situações distintas e sem saber da localização dos demais. Fica agora a expectativa de um dos irmãos ainda esteja vivo e, quem sabe, possa reencontrá-los também. “A esperança é a coisa mais importante. Se o nosso outro irmão estiver vivo, é possível que o reencontremos também”, disse seu Seleste.