Salvem suas flores
A água da enchente destruiu tudo no casebre construído em uma vila da periferia de Porto Alegre. Tragédia anunciada e repetida nas imagens no noticiário de TV, enquanto a câmera percorre o local exibindo cenas já conhecidas dos moradores que, mais uma vez, dão seus relatos de perda, de desolação, de cansaço diante do descaso e da omissão das autoridades.
Uma senhora de olhar distante testemunha mais uma vez o medo e a impotência diante da água e do barro que invadem os cômodos da casa paupérrima todos os anos. “É sempre assim”, diz resignada.
Perdeu a mãe dia desses e agora veio a enchente. E revela a angústia que passou enquanto a água do rio subia, na tentativa de salvar, não algum móvel ou outro bem material, mas as flores vermelhas plantadas em um vaso que a mãe lhe havia presenteado dias antes de morrer.
Em meio ao caos, ela mostra orgulhosa a planta que sobreviveu à enxurrada. Diz que assim lembra da mãe, mantendo as flores por perto. Os olhos com lágrimas exibem o vaso florido e ela sorri. Um sorriso que contempla terno e triste, ao mesmo tempo, o símbolo amoroso deixado pela mãe antes de morrer e que ganha um significado tão intenso e muito mais importante do que a perda dos poucos bens materiais destruídos pela água.
Sorri porque salvou as flores, numa demonstração de desapego total ao que a enchente destruiu, ainda que pouco tivesse adquirido para sua subsistência no casebre. Sorri exibindo a planta como um troféu diante do infortúnio e da fúria da natureza.
Ao me deter fixamente no rosto daquela mulher, marcado por rugas profundas, vi transparecer nos olhos azuis ou verdes uma beleza indescritível; transbordar um amor incondicional intenso, capaz de suportar qualquer dor, qualquer perda, ainda que a da própria mãe.
E ela sorri, transcendendo os problemas imediatos causados pela fatalidade, ignorando qualquer futilidade, rendendo-se à fragilidade humana, certa no seu simplório e ao mesmo tempo profundo e filosófico pensamento de que apenas o amor pode sobreviver a tudo.
Antes que o tempo nos leve, também, aprendamos nós com essa senhora a salvar nossas flores. E são tantas, com certeza, que muitas vezes as esquecemos abandonadas no jardim da vida, enquanto estamos preocupados em salvar outras coisas sem qualquer valor e que poderão nos ser arrancadas a qualquer momento, assim como as flores do nosso jardim.
Roseli Santos
Jornalista
Esta postagem foi publicada em 23 de outubro de 2009 e está arquivada em Caixa Postal 59.


