Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 4 de janeiro de 2019 e está arquivada em Tempo Contado.

O som da última noite, por Doralino Di Souza

O som da última  noite

Observa no velho toca discos o vinil rodando. A agulha de diamante vibra dentro dos sulcos microscópicos. Imagina o atrito transformando-se em pulsos elétricos, transmitidos através de fios até o alto-falante, gerando o som, lançando-se ao espaço em ondas sonoras, depois captadas pelos tímpanos, codificadas e então interpretadas pelo cérebro como música. Olha o copo em sua mão, daí, num só gole toma o restante do uísque, e sem pressa caminha até um aparador, próximo da porta de entrada. Pega a garrafa, está pela metade, e serve-se de outra dose. Fita três porta-retratos sobre o móvel, porém, antes que a nostalgia tomasse posse, volta a sentar-se na antiga poltrona.

Seu olhar passeia do chão de parquet gastos pelo tempo até o forro de gesso sem pintura. Depois pelas paredes, no relógio parado porque acabara as pilhas, e ele só lembra de comprar quando olha as horas. Na pintura abstrata de um artista de rua com pouco talento, todavia, um grande conhecedor da história da arte, isso justificara o investimento, ele recorda. Sobre uma prateleira, a lata uruguaia, comprada no único passeio pra fora do país, ainda guarda um resto de erva pro chimarrão. Um mini vaso chileno que, sabe-se lá porquê, comprara num antiquário da Cidade Baixa. O caderno de anotações, já que anda com mania de não lembrar das palavras, nomes e endereços. O carregador de celular. O livro Iniciantes, do Raymond Carver, esquecido pela antiga colega de trabalho, numa noite, quando aceitara jantar com ele, depois ela sempre dizia que voltaria pra buscá-lo, mas nunca voltou, na verdade, faz anos ele não tem notícias dela. Atravessando a janela envidraçada seu olhar esbarra nas luzes dos prédios do outro lado da rua. E mais além, o neon do letreiro da revenda de carros usados.

Fecha os olhos. Sons da noite chegam até ele, misturando-se a melancólica canção, pois, como sempre, está ouvindo a música em volume baixo. Não gosta de anunciar pra vizinhança que está em casa. Nunca gostou. Abre os olhos. Sem nenhuma particularidade procura outro LP. Estão na caixa defronte ao sofá. Ouviu-os inúmeras vezes. Sabe de cor. Conhece cada faixa. Cada intérprete. Cada álbum. Retira um do saquinho plástico. Poe pra tocar. Admira a capa do disco enquanto a melodia se espalha no pequeno apartamento do terceiro andar.

Lembrou-se, de novo, de que estão todos mortos. Tem escutado só vozes mortas: Waldik Soriano. Lindomar Castilho. Nelson Gonçalves. Jair Rodrigues. Gonzaguinha. Tim Maia. Antônio Marcos. Altemar Dutra. Clara Nunes. Elis Regina. Emilio Santiago. Nara Leão. Raul Seixas. Sergio Sampaio. Belchior. Bezerra da Silva. Todos mortos.

Não é somente canções o que ele escuta. Ouve também suas almas. Se emociona com as letras. As pequenas violências humanas contadas com poesia. Os excessos das paixões. Os lamentos. Narrativas precisas sobre a incompreensão dos dissabores da vida. O imensurável vazio das noites. E o jeito como tudo verte para um único lugar. Fica pensando um pouco mais sobre isso. E bebericando sua bebida.

Meia noite. Lá fora os fogos de artifício anunciam o novo ano. Estampidos multicoloridos atingem a escuridão evocando recomeços. Ele brinda erguendo o copo ao brilho da noite que emana pela janela, depois se levanta, aumenta o volume como nunca antes havia feito, anda até o aparador, toma o resto do Scotch na garrafa, depois a deixa sobre o móvel junto ao copo e depois pega a navalha que estivera ali desde bem cedo. Volta pro velho sofá.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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