
Apenas uma canção esquecida
Era sexta-feira à noite dum verão quentíssimo. O calor trouxe muita gente pro Boteco. As pessoas conversavam o que há pra conversar nesses lugares e era tanta euforia em volta das mesas que os garçons quase não ouviam quando alguém gritava pedindo mais um chope ou um prato atulhado de batatas fritas. Na parte escura do ambiente, iluminado por um singelo holofote, sentado sobre um banquinho de madeira maciça, num minúsculo palco, Emerson tocava violão e cantava canções que absurdamente ninguém prestava atenção. Todavia, ele também não dava a mínima pras pessoas que surgiam por ali. Emerson apenas tocava sua playlist, sem nenhuma envergadura autêntica. No passado ele fora ambicioso, escrevera canções, chegara gravar um CD que tocou em algumas emissoras de rádios e ele projetou carreira artística, mas, como eu disse, foi no passado.
Nos últimos tempos, Emerson apenas tocava e cantava canções de versos repetidos fáceis de decorar que todo mundo conhecia. Com isso, sua mente podia ficar numa espécie de stand by, e esse vazio o deixava em paz. Num relaxamento emocional só atingido por quem consegue esquecer que ao redor existe algo maior. Eram cinco noites por semana (de quarta a domingo), tocando de três a quatro horas (a duração dependia do movimento de cada noite) e Emerson recebia o suficiente pra pagar aluguel do quarto e a comida dos dias. Ele também tinha direito a toda bebida que quisesse tomar, só não podia errar a letra das músicas nem falar palavrão aos clientes. Quando não estava tocando e cantando Emerson gostava de vagar pelas ruas. No sol ou na chuva, noite ou dia ele caminhava. Não tinha nenhum lugar pra ir e isso realmente o satisfazia: apenas se deixar guiar por suas pernas sem compromisso de tomar decisão. Ou então ele passava horas a fio na frente da TV assistindo desenhos animados e ao National Geographic. Às vezes acontecia duma mulher traída ou abandonada ficar bebendo até o Boteco fechar, daí quase sempre ele descolava uma foda, também acontecia de a dona do estabelecimento volta e meia deitar em sua cama. Contudo, Emerson gostava mesmo era de se masturbar. Para ele a masturbação era a mais segura e sincera relação amorosa.
Naquela sexta feira de calor excessivo, depois de tocar durante quatro horas, Emerson resolveu tomar uma cerveja antes de ir embora. Ele encheu o copo até transbordar e o levou a boca. Bebeu a metade, e aí seu coração decidiu parar. Assim, sem nenhum aviso prévio. Simplesmente alguma coisa lá dentro se negou a seguir o curso de sempre e parou. Primeiro o copo escapou da mão e espatifou-se no assoalho, em seguida Emerson caiu esticado no meio do bar. Emerson tornou-se uma dessas canções que todo mundo conhece, mas que são esquecidas e substituídas a cada nova estação.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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