
Trem Urbano
Rostos de olhares estáticos sob a luz fluorescente. Cabeças pendendo para algum lado, num cochilo talvez reconfortante. Outras pessoas, absorvidas em seus pensamentos, nem sequer viam quem entrava ou saia a cada parada. O trem estava lotado. Alheias a paisagem mudando rápido, não deram bola quando, na Estação São Pedro, ele entrou.
Tão logo subiu no vagão, largou as duas mochilas no assoalho, manteve-se em pé, o menino no segurado da mão. O rosto ainda jovem não trazia nenhum sinal de preocupação, apesar da sisudez. O menino, nas traquinagens dos cinco anos, tentava escapar da mão firme que o segurava. O homem puxava com força, fazia o guri se agarrar a ele. As portas se fecharam, num ruído compacto. O trem urbano continuou sua marcha barulhenta.
As pessoas seguiram em seus mundos, visualizavam suas casas, desprendiam-se de suas dores, tentavam esquecer os anseios próximos ou distantes. Lá pelas tantas o guri reclamou num muxoxo entristecido: “Quero minha mãe, pai.” O homem não ouviu, ou fez que não. O guri insistiu, agora com voz alterada: “Quero a mãe, pai, me leva pra casa”. O homem baixou a cabeça, seus olhos encontraram o olhar do menino. O homem franziu a testa, o guri se encolheu.
O guri começou a chorar. As pessoas em seus mundos, decerto nem ouviam. Uma voz metálica ecoou pelo vagão: Estação Anchieta. Gente apressada, uns saindo outros entrando. O homem deu um sacolejo no guri: “Fica quieto, não quero nenhum pio”. O choro mais forte. O homem juntou as mochilas. Foi saindo pela grande porta ainda aberta. O guri estaqueou: “Não vou, quero minha mãe, me leva embora”.
O homem deu um puxão, arrastando o guri. Os gritos altos do menino: – Quero minha mãe, não quero mais brincar contigo, não vou mais te chamar de pai. O homem saiu andando rápido, o guri, aos empurrões, indo junto. O trem retomou seu rumo. As pessoas, pensando em seus trabalhos. Em suas vidas. Em suas coisas. Ou em coisa nenhuma. Não viram nada.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]


