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Esta postagem foi publicada em 27 de novembro de 2009 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Avaliações

plinio1212111Do “Meu livro de citações”: Vizinho só serve para reclamar de vizinhos.
AVALIAÇÕES

Estamos numa época particularmente sensível do ano. Não estou falando das preparações natalinas que, ainda com 28 dias para o Natal, já tomaram conta do nosso dia a dia. Minhas preocupações são de outra ordem e, provavelmente, elas também acometem outros que, como eu, se dedicam ao magistério. Estou falando do encerramento do ano letivo, das notas finais, das aprovações e, lamentavelmente, das reprovações. Cada professor tem em suas mãos uma batata quente, pois seus julgamentos podem mudar o curso de uma vida. Por isso, devemos tomar todas as precauções para que as avaliações, pelo menos em nossas consciências, sejam as mais bem fundamentadas possíveis.
Um médico, mesmo o mais competente de todos, luta contra inimigos poderosos, mas conta com a ajuda do paciente, o maior interessado na vitória, porque está em jogo a sobrevivência física. É preciso continuar vivo. De uma avaliação mal conduzida pode resultar o pior dos incidentes, a morte, porém os dois, profissional e doente, fazem todo o possível para a aprovação final. Com a dupla professor/aluno, às vezes os fatos viajam em sentidos opostos. Nem sempre um e outro querem a mesma coisa. O aluno quer aprovação, objetivando conseguir um certificado e, para isso, faz qualquer coisa. O professor, pelo contrário, crê na existência de uma ordem, dando-lhe o poder de decidir quem tem o direito de prosseguir. Tem fé de ofício e, por isto, aprova ou reprova.
Entretanto, se, no caso do médico, o resultado positivo é manter o cliente vivo, no do professor, a manutenção da vida pode ser desastrosa, pois não significa, com certeza, um bom aproveitamento do serviço executado. Por isso a preocupação. Nós lidamos com as consequências de nossas decisões, quase uma atividade de futurólogo.
Para ilustrar conto um acontecido comigo. Durante o Mestrado, uma professora, avaliando um escrito meu, escreveu na capa: “muito bom o texto, mas carece de referências bibliográficas; aliás, não tem referências”. Apesar disso, aprovou-me com a nota máxima. Então, entusiasmado, apresentei o mesmo artigo para publicação na revista acadêmica do curso. A editora, colega minha, recusou a colaboração devido à sua pouca “qualidade”. Ou seja, dependendo da última, eu não estaria aqui, hoje, escrevendo neste jornal, pois teria abandonado as letras. Minha vaidade mergulhou do altar, onde a professora a colocara, para baixo do tapete, empurrada pela colega. Foi terrível.
Pretendo alguma coisa com estas palavras? Sim! Avaliemos com calma os trabalhos de fim de ano. Lembremos que existem produções excelentes mesmo sem a formalidade acadêmica e, em contrapartida, existem verdadeiras catástrofes, ainda que apresentando todas as referências e embasamentos teóricos preconizados pelos manuais. Que me defenda o escritor Luiz Antônio de Assis Brasil cuja tese de doutorado em Literatura, na PUC-RS, foi um belo livro de ficção histórica (Cães da Província). Ainda bem que ele não encontrou a minha colega.

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