
O Hospital Bom Jesus, de Taquara, sofre uma nova reviravolta em sua gestão nesta quinta-feira (4). Atual entidade à frente da casa de saúde, a Associação Beneficente Silvio Scopel demitiu a diretora-administrativa Alexandra Camargo. Em entrevista ao Jornal Panorama, por WhatsApp, a profissional disse que isso ocorreu após denúncias que fez ao Ministério Público Federal (MPF) por não compactuar com a forma de gestão da Scopel no hospital. Entre os problemas, a falta de liberação de recursos para a casa de saúde, o que acarretou a demora em procedimentos. Além disso, o pagamento de aluguel de um tomógrafo que está estragado.
No dia 19 de junho, Alexandra prestou depoimento à Procuradoria da República de Novo Hamburgo. O Jornal Panorama obteve acesso ao documento, em que a diretora fez referências a uma série de atrasos em procedimentos de saúde do hospital. Informou que, em relação aos exames de ressonância magnética, há 64 pacientes aguardando, sendo cinco falecidos e 20 já realizaram por conta própria, sendo que a fila de espera é de um ano. No contrato, o hospital precisa fazer 20 exames de ressonância magnética por mês.
Para os exames de cintilografias, a diretora referiu uma fila de 93 pacientes, sendo sete falecidos e 27 que já realizaram por conta própria, com fila de espera de um ano. O contrato prevê 30 exames por mês. Quanto às biópsias de mama, próstata e hepática, estão aguardando 140 pacientes, sendo 21 falecidos e 33 que já realizaram por conta própria, com fila de espera de um ano. O contrato estabelece 20 biópsias por mês.
No depoimento, Alexandra informou que aguardam tomografia computadorizada 168 pacientes, sendo seis falecidos e 37 fizeram por conta própria, com fila de espera de sete meses. O contrato prevê 155 tomografias computarizadas eletivas. Questionada pelo Jornal Panorama, Alexandra afirma que as metas não estavam sendo cumpridas pelo hospital, mesmo com ela tendo sinalizado à entidade gestora e o próprio governo do Estado ter feito menção a respeito. Ao MPF, a diretora disse que “a ausência no cumprimento desses quantitativos implica no não atingimento de metas do contrato e prejudica o tratamento oncológico e outras especialidades, bem como os quantitativos dessas especialidades”.
À Procuradoria, Alexandra ainda referiu que as cirurgias oncológicas aguardam o pagamento referente ao período de setembro/2018 a junho de 2019. Menciona, ainda, que o tomógrafo existente dentro do hospital não está funcionando desde outubro de 2018, sem previsão de conserto, acarretando a fila de espera de eletivos, dos internados e das emergências. Afirma que a realização de exames, no momento, é feita por terceirizados, havendo despesas e prejuízo ao paciente que precisa ser deslocado.
O Jornal Panorama questionou Alexandra sobre qual a responsabilidade da Scopel diante da demora nos exames mencionados no depoimento. Segundo ela, “o tempo elevado de espera é por falta de liberação de valores para pagamento por parte da Scopel, que tem o controle financeiro da instituição”. Isso ocorreu, conforme a ex-diretora, mesmo tendo a sinalização de urgência na liberação por parte do hospital. Afirmou, ainda, que somente neste último mês começou a liberação, devido às suas denúncias. “Por exemplo, agora resolveram pagar as cirurgias oncológicas, hoje”, comentou.
Segundo Alexandra, desde setembro o hospital está sem pagar os médicos cirurgiões, sendo que receberam do estado valores. Mencionou que a Scopel não realizou calendário de férias, mesmo tendo vários funcionários com férias a vencer até novembro, caso contrário o hospital terá que pagar multa. “Era só fazer um calendário com as liberações de valores de férias”, disse.
Alexandra mencionou que o tomógrafo continua no hospital, sendo que a Scopel está pagando o aluguel com o equipamento estragado. Questionada se a entidade nunca determinou o conserto do equipamento, a ex-diretora afirmou que não, apenas a realização de orçamentos. O tomógrafo estragou em outubro do ano passado.
“Fiz tudo isso porque não pactuo (sic) com essa forma de gestão de dinheiro público. É complicada minha postura, mas necessária, sou uma profissional acima de tudo. Estudei e me dediquei não para esse tipo de gestão da Scopel”, afirmou. Alexandra esclareceu que o depoimento prestado ao MPF foi por iniciativa sua e que a demissão teve como alegação de que não deveria ter feito a denúncia à Procuradoria. Ela mencionou que nada estava sendo resolvido mesmo após vários e-mails, mensagens e reuniões. Disse que ficou mais indignada após as mortes de vários pacientes, pois sempre tentou manter os atendimentos no hospital, e os representantes da Scopel “não colocam os pés no Bom Jesus desde fevereiro”.
Alexandra disse que já foi ao MPF em outras situações que também estão sendo investigadas. Finaliza afirmando que tem a consciência tranquila de que fez o seu trabalho “o mais honesto possível e que tudo que fiz o MPF estará averiguando os fatos referente à Scopel”.
A reportagem do Jornal Panorama entrou em contato com a direção da Silvio Scopel, em sua sede administrativa em Santa Cruz do Sul. A entidade informou que enviaria uma nota, que será publicada nesta reportagem assim que for remetida à redação. Panorama também solicitou informações ao MPF sobre as providências adotadas, que serão publicadas nesta reportagem assim que houver resposta.


