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Hospital de Taquara: diretor técnico pede demissão e MPF confirma investigação

Ex-diretora administrativa referendou em duas reuniões denúncias divulgadas ao Jornal Panorama.

A demissão da diretora-administrativa, Alexandra Camargo, do Hospital Bom Jesus, de Taquara, gerou repercussões nesta sexta-feira (5). A profissional foi desligada pela Associação Silvio Scopel após fazer denúncias sobre a gestão da casa de saúde ao Ministério Público Federal (MPF) e tornar públicos os dados em entrevista exclusiva ao Jornal Panorama. Nesta sexta-feira, o diretor técnico da casa de saúde, Renato Menzel Neto, pediu demissão, em apoio à ex-colega. Uma assessora de Alexandra, Saraí Rivero, também pediu demissão do hospital, e Alexandra confirmou o teor das denúncias em duas reuniões, do Conselho Municipal de Saúde e com vereadores. Por sua vez, o Ministério Público Federal (MPF) confirmou que está investigando indícios de irregularidades na gestão da Silvio Scopel.

O médico Renato Menzel informou, com exclusividade ao Jornal Panorama, que pediu seu desligamento da direção técnica do hospital e atribuiu a solicitação à demissão da diretora Alexandra. Disse que, com ela, teve “incansáveis esforços na reconstrução de um hospital encontrado em ruínas assim como na viabilização de melhorias na assistência do SUS”. Sobre as denúncias feitas por Alexandra, Menzel diz que apoia totalmente, pois sempre conversou com a colega “para cobrarmos com firmeza as adequações necessárias para a qualidade assistencial em todos os âmbitos”.

Ex-diretora Alexandra prestou depoimento ao Conselho Municipal de Saúde.
Jéssica Ramos / Jornal Panorama

Na entrevista desta quinta-feira (4), a ex-diretora disse que atrasos na liberação de recursos por parte da Associação Silvio Scopel vem retardando a realização de exames no hospital, mesmo tendo o repasse de verbas do governo do Estado. Além disso, mencionou que a entidade gestora vinha pagando o aluguel de um tómografo, mesmo com o equipamento estragado, entre outras falhas. Nesta sexta-feira (5), Alexandra participou da reunião extraordinária do Conselho Municipal de Saúde e referendou o teor das denúncias apresentadas ao Panorama. Disse que outros dois funcionários foram demitidos e acrescentou que possui documentos em relação às informações prestadas. Foi questionada por conselheiros sobre porque trouxe esses dados a público apenas após a demissão, e ela disse que já vinha fazendo as denúncias há meses, e não apenas uma, e que, ao contrário de abrir as informações apenas após a demissão, o desligamento é que foi ocasionado em virtude das denúncias. Acrescentou que tentou reverter os problemas, mas não obteve sucesso, e que agora demitida se sentiu na obrigação de tornar pública a situação. Alexandra também falou aos vereadores de Taquara em uma reunião no Legislativo.

Posição do Ministério Público Federal (MPF)

O procurador Bruno Alexandre Gutschow, do Ministério Público Federal (MPF) em Novo Hamburgo, informou nesta sexta-feira que as informações repassadas pela diretora Alexandra, “assim como as demais obtidas de outras fontes, que apontem indícios de eventuais irregularidades praticadas Associação Beneficente Silvio Scopel, durante sua gestão do HBJ, estão sendo avaliadas nos autos do inquérito civil 1.29.003.000037/2019-52”. No texto, o procurador complementa que já foram requisitadas à Silvio Scopel demonstrações contábeis sobre a prestação de contas em relação à intervenção, além de informações acerca da ausência da prestação de contas da entidade ao Conselho Municipal de Saúde de Taquara. “Estão sendo aguardadas complementações dessas informações, as quais serão remetidas para análise contábil e parecer técnico, por profissional especializado do MPF”.

O procurador menciona que, juntamente com o governo do Estado, através do Departamento de Assistência Hospitalar e Ambulatorial (DAHA), acompanha-se a regularidade da atuação dos serviços prestados pela Silvio Scopel. Acrescenta que, no dia 8 de março, foi realizada reunião, na Procuradoria da República em Novo Hamburgo, com representantes do DAHA, da 1ª Coordenadoria Regional de Saúde, da Procuradoria do Estado do Rio Grande do Sul, do Hospital Bom Jesus e da Silvio Scopel, quando foram discutidos, em especial, os repasses financeiros do governo gaúcho à entidade gestora. Ficou acordado, segundo o procurador Bruno, nova reunião para o dia 15 de julho, no MPF.

Na nota, o procurador Bruno destaca, ainda, que a ação civil pública que promoveu a intervenção judicial no Hospital Bom Jesus, visando à garantia da prestação adequada do serviço público de saúde, foi proposta em conjunto com a Promotoria de Justiça de Taquara, a qual, segundo o MPF, também está acompanhando a situação dos serviços na casa de saúde.

Titinho ressalta que gestora foi indicada judicialmente

O prefeito de Taquara, Tito Lívio Jaeger Filho, também se manifestou, nesta sexta-feira, sobre a situação do Hospital Bom Jesus. Ressaltou que a administração municipal não possui a gerência do estabelecimento de saúde, uma vez que a Associação Silvio Scopel foi nomeada pela Justiça Federal, a partir de ação civil pública proposta pelo MPF e o Ministério Público gaúcho. Disse que a prefeitura acompanha o caso com preocupação e procurará acompanhar as informações e, em especial, quais serão as providências tomadas pelo Promotoria e a Procuradoria, além da Justiça. Tito voltou a reforçar que a prefeitura é proprietária do prédio do hospital, mas não a contratante dos serviços, que são bancados pelo governo do Estado.

Sobre o edital de licitação para a definição da nova entidade gestora, o prefeito informou que ainda aguarda uma definição da Justiça, pois o MPF e a administração municipal possuem discordâncias em relação aos termos do procedimento. Tito disse que a prefeitura pretende exigir que a entidade a assumir o hospital possua o Certificado Beneficente de Assistência Social (Cebas), documento emitido pelo Ministério da Saúde, e que, conforme o prefeito, garantiria uma qualificação sobre a gestora do hospital e ainda asseguraria vantagens como diminuição da carga tributária. Mas, o MPF, por sua vez, discorda dessa exigência e entrou na Justiça. Por enquanto, não há definição do Judiciário a respeito de como se resolverá essa pendência.

Câmara pretende buscar informações no MPF

A presidente da Câmara de Taquara, Sirlei Silveira, disse que o Legislativo ouviu a ex-diretora Alexandra nesta sexta-feira, em ato da mesa diretora que teve a participação de outros vereadores, pois todos os membros da Câmara estão preocupados com a situação do hospital. Disse, ainda, que a ex-diretora referendou aos vereadores o teor das denúncias que apresentou ao Jornal Panorama. A partir disso, a Câmara pretende continuar elaborando documentos a serem encaminhados aos órgãos competentes e agendou, para a próxima semana, uma reunião com a direção da Silvio Scopel para obter mais informações. Sirlei ainda disse que o Legislativo quer buscar um encontro com o MPF para expressar essa preocupação. A presidente lembrou que muitas das situações já vinham sendo apresentadas pela Câmara, e, inclusive, sendo encaminhadas ao MPF. Reforçou que o Legislativo tentou, em outras ocasiões, ouvir a direção da Silvio Scopel, mas chegaram a ocorrer reuniões em que os diretores confirmaram presença e não compareceram.

Posição da Silvio Scopel

O Jornal Panorama pediu, ainda nesta quinta-feira (4), um posicionamento à empresa Silvio Scopel sobre a demissão da ex-diretora Alexandra. Nesta sexta-feira (5), a entidade marcou, para a próxima segunda-feira (8), às 17 horas, uma coletiva de imprensa, na sede do hospital, em que apresentará o novo diretor-administrativo, Rafael Rodrigo da Silva, e “serão objetivadas informações sobre o que realmente acontece na instituição hospitalar dos taquarenses, inclusive, com o que foi relatado pela empresa gestora do hospital ao Ministério Público Federal no decorrer do mês de junho”.