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Hospital de Taquara: Silvio Scopel diz que ex-diretora “cometeu barbáries contra saúde pública”; profissional rebate entidade

Entidade gestora da casa de saúde lança fortes acusações contra Alexandra Camargo.

A Associação Silvio Scopel, entidade gestora do Hospital Bom Jesus (HBJ), de Taquara, se manifestou, nesta sexta-feira (5), sobre a demissão da diretora-administrativa Alexandra Camargo, ocorrida nesta quinta-feira (4). A entidade lançou acusações à profissional demitida (veja resposta dela ao final da reportagem), que havia concedido entrevista ao Jornal Panorama e disse que foi desligada pois fez denúncias sobre problemas de gestão atribuídos à entidade. A Scopel também apresentou o novo diretor-administrativo do Hospital, Rafael da Silva, e o novo diretor-técnico, Daniel Kollet. Nesta sexta-feira, Renato Menzel Neto pediu demissão da direção técnica, em solidariedade a Alexandra.

O superintendente da empresa gestora do Hospital, médico Piraju Nicola Neto, foi o primeiro a se manifestar, no texto da entidade, sobre a demissão de Alexandra. “Não temos como manter alguém em um cargo de tamanha confiança, a partir do momento que tomamos conhecimento das suas inúmeras barbáries cometidas contra a saúde pública do município de Taquara e região as quais foram conduzidas de forma sorrateira e mentirosa. Confiamos, em todos os momentos, a gestão do Hospital Bom Jesus para uma pessoa que participava e tinha o poder de nos representar nas reuniões do Conselho de Saúde, CIR [Comissão Intergestores Regional], SES [Secretaria Estadual de Saúde], entre outros. Estranhamente o que me questiono é o por que, que somente agora ocorreram denúncias de irregularidades, provavelmente por ter sentido o seu cargo ameaçado devido às últimas notificação (sic) administrativas que recebeu”, comentou.

Depois, se manifestou o presidente da Silvio Scopel, Juarez Lamb: “Quando começamos a descobrir o que realmente acontecia no Hospital Bom Jesus, em se tratando da administração da unidade a qual fora mal conduzida, ficamos estarrecidos e agimos imediatamente. E pelo que podemos observar nos relatos da ex-diretora Alexandra, parece termos indícios que a mesma estava trabalhando contra os princípios da moral e dos bons costumes da nossa empresa, afinal era ela (Alexandra) quem conduzia todas as ações no hospital. Ao dizer que não compactua com a nossa forma de gestão, ela deve ter esquecido que era ela a responsável pelos atos praticados nesta Unidade, pelo que podemos observar, teremos muitas novidades indesejáveis, diante do que entendo ter sido conchavos com o consentimento da ex-diretora. Isso é preocupante e lamentável. Mas nos comprometemos em passar um pente fino em tudo o que aconteceu no período em que a Alexandra estava como diretora, e assim que tivermos uma conclusão ou novos fatos tornaremos público”, afirma o presidente. Na nota, ele diz que é um momento em que “a reflexão sobre todos os acontecimentos deve prevalecer e, sem acusações falsas ou desnecessárias, o mais importante é acreditar na justiça”, disse. Segundo o texto da Scopel, Juarez fez referência, neste ponto, a documentos entregues pela entidade ao Ministério Público Federal (MPF) no decorrer de junho e julho.

Segue a manifestação de Juarez: “O papel aceita tudo. A notícia que chega nem sempre condiz com a realidade dos fatos. Temos um trabalho de anos, reconhecido em várias localidades, e não será esse momento que vai nos fazer esmorecer, ao contrário. Infelizmente, é preciso saber onde ocorreram os erros, mesmo tendo consciência que não foram da nossa parte, afinal, fomos enganados durante um período considerável, e acreditar que a transparência dos atos apresentados ao MPF sejam observadas. Que a justiça seja feita. O importante é trabalhar, pois somos responsáveis, em Taquara, por 232 colaboradores que dão o melhor de si para que a saúde pública desta cidade seja enaltecida. Isso é fato, e também deve ser notícia. São representantes de inúmeras famílias que não medem esforços para salvar vidas, profissionais com quem temos responsabilidade permanente enquanto gestores do Hospital Bom Jesus”.

A entidade prossegue em seu texto dizendo que o atendimento humanizado que é recomendado em todas as ações desenvolvidas pelos colaboradores da Scopel foi deixado de lado pela ex-diretora. Segundo a empresa, em relatos que chegaram à sede administrativa, após a demissão de Alexandra, “observa-se que ocorreram descaso (sic) com as pessoas que, em vários momentos, não eram atendidas à noite por alguns médicos que, com o pretexto de ‘não acostumar mal’ a comunidade com o primeiro atendimento no HBJ, encaminhavam os pacientes para o Posto de Saúde e PA da Prefeitura ou as deixavam esperando durante horas, não se importando com aquele momento de dor e dificuldade”.

O superintendente Piraju comenta a respeito deste ponto que a Scopel refere como descaso com as pessoas: “Isso é vergonhoso, um verdadeiro descaso com a comunidade que necessita de atendimento. Ninguém procura o hospital, principalmente à noite, sem uma real necessidade. E ainda observo uma informação da ex-administradora dizendo que tem a consciência tranquila sobre o trabalho desenvolvido, que foi o mais honesto possível! Este tipo de afirmação é repugnante. Deixar as pessoas esperando por horas para serem atendidas ou encaminhá-las para o atendimento em um Posto de Saúde, fazendo-as sofrer ainda mais é inadmissível. Rever isso tudo, fazer uma auditoria interna para saber quais os profissionais negaram o atendimento nestes casos e, principalmente, pedir desculpas para os moradores de Taquara e da região não é um dever, mas obrigação de todos nós que fazemos o dia a dia da Scopel Gestão Hospitalar”.

Na entrevista ao Jornal Panorama, a ex-diretora mencionou que alertava a Scopel sobre o atraso na liberação de valores para exames, o que comprometia o cumprimento de metas com os procedimentos. Sobre este comentário das metas, a Scopel afirma que buscou, a partir da demissão, os motivos que inviabilizavam este cumprimento, “tendo em vista que sempre que solicitada informava à direção da Scopel Gestão Hospitalar que estava ocorrendo dentro da normalidade, fato que, lamentavelmente, não era verdade”. A Scopel diz que, logo após a demissão, tendo em mãos parte da documentação recolhida na administração do hospital, inclusive com atas, soube que haveria conivência da então diretora para que ocorressem negativas de acesso de vários médicos do hospital. Panorama pediu esclarecimento à Scopel sobre o que seriam essas negativas e a entidade informou que alguns médicos do corpo clínico negavam a realização de procedimentos, o que ocorreria com o consentimento de Alexandra. “Sendo assim, os quantitativos não foram alcançados por conta desse descaso, tendo, inclusive, manifestações contrárias a este tipo de atitude registradas em ata da reunião da CIR”, complementa a nota.

Com relação às cirurgias oncológicas, Alexandra disse, ao Jornal Panorama, que o pagamento estava em atraso desde setembro. Contudo, a Scopel afirma que a ex-diretora não informou que encaminhou as cobranças somente em maio deste ano. Além disso, a entidade afirma que Alexandra fez isso “de uma forma irresponsável, com a apresentação de valores errados que, no caso de pagamento, teria comprometido significativamente as finanças do hospital”. Acrescenta que documentos comprobatórios quanto a estes fatos já foram entregues ao MPF.

A nota da Scopel menciona a realização de uma reunião com as autoridades municipais, Conselho Municipal de Saúde, imprensa regional e comunidade que será realizada no decorrer da primeira quinzena de julho. Na ocasião, a entidade pretende apresentar oficialmente o novo diretor administrativo e informações “sobre o que realmente ocorreu na casa de saúde, prestando contas, inclusive, com o que foi apresentado ao Ministério Público Federal no decorrer do mês de junho”. O texto acrescenta uma manifestação final do superintendente Piraju: ““É preciso lembrar a todos quem somos e porque estamos aqui. Não foi para ludibriar ninguém ou, tampouco, fazer falcatruas. Agora é questão de ajustarmos uma data que possa reunir o maior número de pessoas realmente interessadas em promover a saúde pública na cidade e não apenas aparecer na mídia, dando desculpas ou se fazendo de vítima. Essa apresentação se faz necessária, é questão de tempo. Não temos o que esconder”.

Além do desligamento de Renato Menzel e da nomeação de Daniel Kollet, a Scopel confirmou que a assessora da direção do hospital, Saraí Rivero, pediu demissão nesta sexta-feira.

Contraponto

Panorama pediu posicionamento sobre a nota da Silvio Scopel à ex-diretora Alexandra, que enviou resposta por escrito. Segue na íntegra: “Inicialmente Incialmente esclareço que meu cargo no HBJ era de diretora administrativa, sendo assim respondia pela parte administrativa da unidade, e isso sempre ficou claro a todos os integrantes da ABSS. Com relação as “negativas”, acredito que estejam se referindo às declarações de impossibilidade técnica-DITA, documentos cedidos aos pacientes que não encontravam tratamento necessário no HBJ, esses eram preenchidos pelos médicos e cedidos no intuito de não atrasar o acesso dos pacientes ao tratamento necessário, ou seja, esse documento permitia aos pacientes a busca aos recursos necessários. Ressalto que o fornecimento da DITA foi uma exigência do Estado do Rio Grande do Sul e do Ministério Público Federal, em reunião realizada no mês de março, na qual estavam presentes os superintendentes da ABSS. Informo ainda, que essas estavam sendo cedidos nos casos avaliados tecnicamente como necessários e referiam-se a especialidades que não estavam sendo ofertadas como é o caso da urologia, que teve o profissional desligado ano passado pelo superintendente e até a presente data não foi substituído, mesmo após ser sinalizado varias vezes. Ao finalizar, considerando que no texto são feitas apenas suposições por parte da ABSS, informo que estarei a disposição do Ministério Público Federal e os órgãos competentes para os devidos esclarecimentos, visto que possuo toda a documentação comprobatória e os e-mails enviados a ABSS iam com cópia para o MPF.”