
O trote do mensageiro
Surpresas e oportunidades espreitam qualquer existência, todos os dias, em uma vida que pode ser longa ou breve. Cada segundo, um susto ou um contentamento. Cada minuto, uma eternidade ou um momento fugaz. Cada hora, um fato fantástico ou devastador.
Até que se perca alguém muito próximo, parentes ou amigos, o entendimento dessa dimensão tempo/espaço/vivência/impermanência ou o que quer que seja e se acredite, é algo difuso e distante. Uma constatação amadurecida, compreendida ou não, com a passagem dos anos ou com a pura e simples aceitação.
Antigamente, inclusive, levava-se bastante tempo para se receber a notícia da morte de alguém. O mensageiro cavalgava lentamente e tornava aquele momento, me parece, até menos doloroso, pelo fato de ter que ser assimilado assim, devagar, entre uma palavra e outra proferida pelo portador da má notícia ou na carta que chegava sempre após o enterro do falecido.
O que antes vinha troteando sem pressa por estradas de chão batido agora voa por vias virtuais aceleradamente. Mal abrimos os olhos ao acordar e já sabemos de quase tudo, antes mesmo do café da manhã. Nem dá tempo de abrir o jornal com calma (no caso de quem ainda lê jornal impresso para saber as manchetes do dia) e já somos surpreendidos pelas notificações no celular ou pelo noticiário da internet e da TV, que competem em instantaneidade e rapidez na divulgação dos fatos.
Assim somos sacudidos e assombrados por acontecimentos, como a morte daquele vizinho querido ou de uma celebridade anônima, em instantes. Nem sempre dá tempo de compreender e entender o que aconteceu, já que a informação vem e vai à galope, deixando apenas um rastro de poeira, muitas vezes nebulosa demais para saber exatamente o que ocorreu.
E desse jeito, perde-se o fato em si, os segundos que antecedem e preparam a surpresa, o susto ou o medo. Aqueles minutos necessários para o cérebro refletir, para situar as coisas no tempo e no espaço, para ficarmos alegres ou tristes, entusiasmados ou desiludidos.
Não há mais o olhar do mensageiro a dizer tudo em silêncio, enquanto as palavras eram proferidas vagarosamente, apenas para cumprir com a missão, e já nos preparávamos para o pior ou para o melhor, dependendo da velocidade do trote. De longe sabia-se que algo tinha acontecido e levava-se mais tempo para dar adeus, despedida abreviada hoje num piscar de olhos, tempo suficiente para esquecermos o que ocorreu há um segundo.
Por Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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