
O brasileiro precisa ser estudado
Foto de gambiarra faz sucesso na internet. Do prego que segura a alça rompida do chinelo até o ferro de passar roupa usado como chapa para fritar bife, a criatividade das pessoas surpreende e arranca risadas. Volta e meia aparece um exemplo desses nas redes sociais. E aí não demora muito até alguém comentar no post: “o brasileiro precisa ser estudado”.
Pois, bem, o brasileiro já é estudado. É para isso que existem as Ciências Humanas.
Muita gente ainda pensa num antropólogo como aquele cara que se envereda na floresta amazônica para observar tribos indígenas. De fato, esses trabalhos contribuíram bastante para o campo, mas há temáticas bem mais urbanas sendo investigadas. As pesquisas da área versam sobre mulheres da periferia, pacientes terminais em cuidados paliativos, jovens que frequentam festas de música eletrônica… A lista é tão ampla quanto variada.
Nas Ciências da Comunicação, também tem muita ênfase nos sujeitos. Os estudos de recepção, populares por aqui desde os anos 1980, buscam compreender como o público interpreta, digamos, um programa de TV. As conversas em aplicativos on-line suscitam temas para teses e dissertações. Até mesmo os memes que circulam na rede tornam-se objeto de pesquisa. Quem sabe as fotos de gambiarras rendam um artigo num simpósio!
E por quê? Porque o brasileiro precisa ser estudado. Cada recorte desses ajuda a compreender um pouco duma sociedade diversa, complexa e paradoxal como a nossa. As Humanas revelam traços identitários, manifestações culturais e modos de pensar que, na maioria das vezes, fogem ao senso comum.
Talvez você se pergunte qual é a utilidade de dissertar sobre adolescentes que dançam funk. Ora, os adolescentes de hoje são os adultos de amanhã. Eles logo estarão no mercado de trabalho, votarão para presidente e decidirão os rumos do país. Portanto, entender o presente é indispensável para projetar o futuro.
Para reforçar o argumento, vale lembrar que os dados resultantes das pesquisas na área das Humanas podem servir ao mercado. Uma marca que conheça melhor os hábitos dos consumidores consegue elaborar estratégias de vendas mais eficientes. Olha a economia girando aí!
E o governo também se beneficia. Ao saber quais são os costumes e as necessidades do povo, o poder público pode criar políticas que tragam impactos positivos à população.
É por isso que se defende tanto o investimento em investigação científica. O brasileiro precisa ser estudado para se conhecer melhor, ter consciência de suas limitações e, assim, aprender a caminhar para a frente como for possível.
Porém, infelizmente, vivemos numa época em que agências de fomento à pesquisa cortam bolsas por falta de verba. Enquanto isso, governantes afirmam que não existe fome no Brasil e representantes do Executivo duvidam das estatísticas, mesmo quando são apresentadas por órgãos da mais alta credibilidade.
Vai ver esse tipo de brasileiro, o que ignora os fatos e menospreza a relevância dos estudos, seja o que mais precise ser estudado. Isso se sobrarem antropólogos para realizar o serviço.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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