Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 26 de julho de 2019 e está arquivada em Tempo Contado.

O homem detrás da cerca, por Doralino Souza

O homem detrás da cerca

O homem de cabelo ralo e corpo levemente arcado trazia olhar melancólico, lembro-me bem, apesar de estar do outro lado da cerca de alambrado. Era quase um albino e devia andar perto dos sessenta anos. O serviço talvez fosse um bico, ou trabalho voluntário prestado à escola, sei lá. Mas ele, parado junto a pequena guarita, parecia ser o responsável por quem entrava ou saía do colégio. Naquele outono o sol do meio da manhã me enchia duma preguiça boa e traiçoeira. Atravessei a rua em passos devagar, acreditando que a vida era boa comigo, e parei em frente ao portão. O homem nem me viu, ocupado em analisar uns papeis no segurado das mãos. Dei bom dia. Me olhou. Sorriu de um jeito envergonhado enquanto guardava os papeis no bolso do jaleco cor de cinza. Eram recibos dum posto de gasolina e duma rede de supermercado, pude notar. Aí pedi informação sobre o endereço: eu precisava chegar num centro de eventos e não conhecia totalmente a cidade.

Ele pensou uns segundos. Depois, com o dedo em riste, começou a gesticular como se desenhasse um mapa em pleno ar, e enquanto indicava a direção, falava pra seguir em frente, na terceira sinaleira dobrar à esquerda, iria ter uma descida, no final virar à direita, que, logo após o antigo Cinema Imperial, avistaria o prédio. Não tinha erro. Agradeci e disse que preferia não usar o aplicativo de navegação: é mais humano perguntar ao invés de ouvir a voz metálica do GPS dizendo aonde ir. Além disso, pedindo informação teria oportunidade de conhecer novas pessoas, eu frisei. Ele sorriu, me encarando meio de lado. Fez menção de falar algo, daí, se aquietou.

Perguntei se gostava do trabalho. Respondeu que sim. E emendou, “é bom que posso ver minha netinha”. Olhou pra baixo, como a admirar os próprios sapatos, e seguiu falando: “A gente erra nessa vida, seu, fica difícil se aprumar de novo. Minha filha não me perdoa, nunca me deixou brincar com a pequena”.

Era hora de sair dali, pensei, senão, perigava entrar num terreno movediço. De novo agradeci a ajuda. O homem olhou pra mim. Depois indagou sobre meus caminhos. Respondi que tinha palestra agendada na cidade, era escritor – ainda não sei por que revelei aquilo. Ele arregalou os olhos, segurou-se no arame de aço da cerca e disse: “Minha vida dá um livro! O senhor precisa ouvir minha história!” Eu falei que acreditava nele. Todas as vidas podem povoar um livro. No entanto, precisava ir. Ele continuou insistindo. Agarrado à cerca, falava alto: “O senhor precisa ouvir minha história”.

Ele continuou insistindo, erguendo a voz gradativamente, enquanto eu retornei ao carro que deixara estacionado do outro lado da rua. Entrei. Pelo retrovisor vi o homem gritando e gesticulando. Acelerei e segui adiante. Fiz minha palestra. Vendi meus livros. Vim embora. Mas não conseguia esquecer a aflição daquele homem. Suas mãos – eram mãos grossas e tristes – agarradas na cerca. O olhar pedindo chance de contar algo que, decerto, o destruía por dentro.

Quase dois meses passaram e o eco de suas palavras me seguiam, “precisa ouvir minha história”. Então resolvi voltar àquela cidade. Eu tinha de escutá-lo.

Foi a diretora da escola quem me recebeu. Ofereceu café. Falou amenidades. Quando contei por que estava ali, me disse que minha brincadeira não tinha graça nenhuma: o único senhor que trabalhara naquela escola, havia se enforcado fazia cinco anos.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]?

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]