Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 23 de agosto de 2019 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Absurdos digitais, consequências reais, por Rafael Tourinho Raymundo

Absurdos digitais, consequências reais

O mundo parece absurdo? Vale a pena refletir sobre esse fenômeno.

Parte da culpa recai sobre as plataformas digitais. Youtube e Facebook são programados para entregar conteúdo de interesse do usuário. Isso prende a atenção da audiência, afinal. Porém, a mecânica acaba reforçando ideias conspiratórias e distorcidas.

Vamos a um exemplo. Você acessa um vídeo com registros da nova turnê de Sandy & Júnior. O site calcula que esse tópico seja interessante. Logo, vão aparecer outros materiais da dupla. Um pouco pela sua curiosidade, um pouco por sugestão da máquina, você clica num desses links, depois em mais um e em outro. Quando percebe, está assistindo a duas crianças cantando Maria Chiquinha no palco do Som Brasil em 1989.

Como entretenimento, nada de tão problemático. E se trocássemos música por ciência?

Digamos que sua vizinha tenha encaminhado um vídeo alertando sobre os riscos de tomar muita água. Parece estranho, mas você resolve conferir mesmo assim. O site, na lógica de oferecer conteúdo semelhante, exibe, em seguida, alguém enumerando as supostas reações adversas de um medicamento. Pronto: em pouco tempo, seu feed está tomado de matérias sugerindo dietas malucas ou acusando a indústria farmacêutica de espalhar doenças propositalmente.

É da natureza humana guiar-se mais pela emoção que pela razão. Uma história bem contada tem muito mais apelo que planilhas e números. Por isso, tanta gente é sugada para o poço sem fundo da internet, onde qualquer um pode falar qualquer coisa. De post em post, vai-se do “será que iogurte faz mal?” até o “iogurte causa câncer”. E muito cidadão de bem acredita nas fake News.

Por esse motivo que, ultimamente, têm ganhado força crenças de que a Terra é plana, vacina causa autismo ou o homem nunca pisou na Lua. Todos esses mitos já foram contestados, derrubados e explicados pelos cientistas. Só que informações de qualidade não circulam tão rápido quanto uma corrente no Whatsapp – nem têm a mesma persuasão de um youtuber carismático.

Para piorar, as declarações pendem ao extremo até mesmo fora do ambiente digital. Relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) aponta que mais de 5 milhões de brasileiros enfrentam a desnutrição. Apenas em 2017, foram 15 mortes por dia em decorrência desse mal, segundo dados do departamento de informática do SUS (DataSUS). Ainda assim, vem figura pública dizer que não existe fome no país.

Quando os detentores do poder falam absurdos, a população passa a acreditar com mais facilidade em ideias radicais. É o que o pesquisador Joseph Overton chamou de Janela do Discurso. Se há um grupo fazendo pressão para lhe convencer de que todo mundo come bem em solo tupiniquim, você começa a pensar: “Realmente, nunca vi ninguém morrer de fome. Vai ver essa história de desnutrição seja exagero”.

Outra situação possível: “O ministro garantiu que aquecimento global é uma farsa? E quanto a todas as reportagens que indicam o contrário? Sensacionalismo da mídia, né? Decerto as mudanças climáticas nem são tão ruins…”

Não digo que imprensa ou ciência sejam infalíveis. Por outro lado, essas instâncias da sociedade trabalham com evidências muito mais concretas que a mera retórica política. Relativizar pensamentos nocivos, menosprezar dados científicos e desacreditar o jornalismo sério são estratégias para manipular a opinião pública. Governantes sempre fizeram isso. Hoje, com o auxílio das plataformas digitais e de seus crédulos seguidores, eles obtêm sucesso com espantosa rapidez. Ainda bem que o mundo gira.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]