Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 6 de setembro de 2019 e está arquivada em Tempo Contado.

Grito surdo, por Doralino Souza

Grito surdo

Dormi mal essa noite. A ansiedade pelas palavras do doutor me tirou o sono. Sentença amparada em diagnóstico médico sempre gera angústia. A chance de notícia ruim é maior, dizem. Mesmo chegando cedo na clínica o lugar está quase lotado. Num primeiro momento o cenário me remeteu à Guernica, do Pablo Picasso. Aquela pintura retratando um bombardeio realizado por Hitler durante a guerra civil espanhola que acertou em cheio civis em pleno sonho cotidiano, alheios ao que muitos chamam de destino. Esse aspecto de desespero captado pelo artista espanhol está impresso no olhar das gentes que aguardam na sala. Também estão alheias ao rumo decretado no instante seguinte. Finitude como ponto de chegada. Nenhum bônus depois da travessia. Nada de nova oportunidade. Fim. Sem mão para segurar. Fim.

Na sala ampla, após o guichê, onde uma senhora se esforça pra parecer simpática, têm algumas cadeiras de acrílico. Um mínimo de conforto. Vejo ao redor procurando onde sentar. Há lugar na segunda fileira, entre dois senhores, mas prefiro a última fileira. Gosto de ficar sozinho e calado. Do outro lado da sala, na parede onde tem dependurado um pé de samambaia bastante judiado, uma fresta na janela permite brisa entrar. A renovação do ar é bem-vinda. Penso sobre isso e penso em escrever no meu bloco de notas. Nisso uma criança puxa meu casaco. Espio um rosto minguado. Curioso e triste. Faço que não é comigo. A criança permanece ali. Segurando a beira do meu casaco, como se fosse o seu bichinho de pelúcia usado pro sono virar acalanto. Deve ter uns três anos de idade.

Uma velha se aproxima, senta ao meu lado. A velha tem cabelo ruim preso num rabo de cavalo. Tem pele escura. Rosto em traços duros que, talvez, um dia foram suaves. A velha olha pra criança. Depois pra mim. “Ela gostou de ti, ela não é de se aproximar das pessoas, não gosta de abraços, nem de carinho, acho estranho isso, né, carinho sempre é bom.” Eu disfarço num sorriso. A velha continua, “Viemos de muito longe, sabe, saímos cedinho, veio ônibus abarrotado, lá não tem médico, não, cidade do interior, sabe, a criança não dormiu, tadinha, sofre nessas viagens, mas não tenho como deixar, minha neta é mãe dela, foi tentar a vida, faz tempo não dá notícia.” Movimento a cabeça em sinal de concordância. A velha se anima. Imagino que agora vai falar das suas dores físicas. Essas pessoas gostam de falar de suas dores físicas. São suas epopeias. Ela confidencia a surdez. Está ficando surda pela segunda vez na vida.

A velha retira da bolsa um papel, é o encaminhamento pra cirurgia. Depois diz que aos treze anos, o falecido pai jogou água fervente dentro do seu ouvido. “Me queimou os tímpanos, fiquei surda, só que o doutor Adílio, dono das terras onde o pai trabalhava, pagou médico na capital, daí fiquei boa, ouvia quase normal. Agora, depois de velha, o ouvido tá ficando seco de novo.”

Finjo ouvir meu nome e me levanto. A criança não solta o casaco, quase a ergo do chão. A velha dá uma gargalhada, surgem dentes avulsos na gengiva larga. As outras pessoas permanecem absortas em seus dramas. Em seus cochilos. Encaro a velha, me lembra um animalzinho encolhido ante a vida predadora. A menininha segurando minha roupa, firme. Me sento de volta. Com gestos contidos retiro o casaco do corpo, sem que a criança precise largá-lo. Feito abraço acolhedor, vou enrolando-a com o casaco. Um sorriso se aninha no rosto pequeno. Depois a ergo em meus braços. Por breves segundos nossos olhos se encontram. Se encantam. Depois a solto com carinho, ainda envolta no casaco, no colo da bisavó. A velha é toda emoção. Chamam meu nome, mas não escuto. Dane-se o médico e seu diagnóstico. Em passos ligeiros saio da sala e busco as ruas.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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