
“Eu tinha 14 anos e era estudante quando fui levado por uma (in)feliz coincidência a ser testemunha de uma das maiores enchentes que a região já viu. Foi graças a meu pai, um homem que adorava água e os rios do Paranhana e que, por isso, não titubeou quando soube que Igrejinha e Três Coroas estavam embaixo d’água naquele junho de 1982.
Aproveitando a hora do almoço, em que a loja da família estava fechada, Seu Raul pegou o carro e me levou junto para ver a enchente, coisa que ele costumava fazer quando o rio dos Sinos alagava a prainha. Dono de um barco de madeira construído por ele e meu avô nos anos 40, meu pai adorava navegar nas cheias do Sinos. Naquele junho, entretanto, o barco estava sem condições de uso e não deve ter passado pela cabeça do velho Raul de oferecer a embarcação para auxiliar no resgate. Lembro que foi um passeio curto, afinal de contas ele precisava voltar para abrir a loja, mas o suficiente para chegarmos até Três Coroas e testemunhar o tamanho da destruição.
A imagem do centro de Igrejinha alagado, eternizada na foto do arquivo do Panorama que resgatamos acima, ficou na minha retina até hoje como lembrança do que o Paranhana é capaz de fazer. Já repórter, desde os anos 90, tive a oportunidade de ver outras enchentes na cidade e também em Três Coroas. Mas, torcia para que nunca mais presenciasse o nível de destruição de 82. Lamentavelmente, na tarde do domingo passado, quando cheguei na cidade para ver o que estava ocorrendo, me dei conta de que o passado se repetia.
A diferença é que, desta vez, não foram os três dias de chuva seguidos ocorridos em 82, mas, sim, um único temporal de três horas que provocara a destruição. Três Coroas e Igrejinha também são cidades bem maiores do que há 27 anos e esse crescimento, ordenado ou não, certamente contribui para que os efeitos sejam ainda maiores. Assim como em Taquara, onde um loteamento ocupa área alagadiça no bairro Empresa, me parece que as duas cidades vizinhas falharam no planejamento, permitindo construções em áreas de risco. Ou quem deixou a Schincariol se instalar ao lado do arroio Kämpff não sabia que ele também transbordou e passou por sobre a 115 em 82, da mesma forma como vi na tarde do último domingo?
Talvez não seja possível voltar ao passado para achar responsáveis. Mas sempre é bom lembrar do poder que a natureza tem sobre nós.”
João Alberto Müller


