Colunas Penso, logo insisto
Esta postagem foi publicada em 15 de janeiro de 2010 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

Pimenta nos olhos dos outros é festa

plinio1212111Do “Meu livro de citações” — Nas compras, use apenas sacolas de pano para evitar a poluição com sacos plásticos. Mas, para despejar o lixo, utilize apenas sacos… plásticos.
PIMENTA NOS OLHOS DOS OUTROS É FESTA
O título de hoje é parte de um ditado utilizado frequentemente por minha mãe para mencionar alguém sendo punido na mesma proporção das maldades impostas a outrem. E a pimenta dela não entrava propriamente nos olhos. Só que, apesar de toda a nossa modernidade, algumas palavras ainda não são escritas ou pronunciadas livremente em todos os lugares. Como o jornal é um desses lugares, vamos deixar a ardência “nos olhos”. Mas todo o mundo sabe que o receptáculo da pimenta fica mais embaixo.
Estou falando isso em homenagem a uma vovó desesperada, como toda a nação viu na véspera do Natal do ano passado. É aquela que, por uma decisão judicial, devolveu seu neto, o Sean, ao americano pai dele. Foi uma sentença difícil. Aos meus olhos, entretanto, angariou alguma dignidade para o Supremo Tribunal Federal, tão periclitante nos últimos tempos indecisos de Cesares Battistis e Daniéis Dantas. E, fique bem claro, minha homenagem é altamente irônica. Durante cinco anos, o menino ficou morando junto dela no Brasil e qual avô não gosta disso? Ter netos por perto deve ser a suprema glória para esse nível de parentesco. Vocês, vovôs e vovós, que o digam.
Só que a proximidade tão estimada fora fruto de lances novelescos. A mãe do menino, brasileira, casada com o pai, em 2004 veio de férias ao Brasil e resolveu, sem o conhecimento do marido, não retornar aos Estados Unidos. O casamento estava desfeito. Nada de importante para a humanidade. Coisa até corriqueira nos relacionamentos de hoje. Mas uma coisa importante aconteceu concomitante com a decisão: o filho Sean também não voltaria; fora sequestrado do pai. Separar pais e filhos é uma atitude violenta e cruel. Não digo que isso não aconteça ao natural, mas, quando é pela força, a humanidade recebe, sim, uma nódoa na sua amorosidade. E tanto mais terrível quando o desamor é praticado por um dos genitores. Não cabe a um deles dizer se o outro serve ou não para o filho. O espírito de justiça fica toldado pelos interesses em jogo.
Nos noticiários de televisão, num deles, foi ao ar uma conversa telefônica entre os pais de Sean. No trecho veiculado, ouve-se apenas a voz da mãe, justificando o seu não retorno ao lar americano: “nunca fui amada 100%”. E de mulher não amada, deu um jeito de buscar a centena tão almejada. Casou de novo, mas, lamentavelmente, morreu ao dar à luz a irmã do menino. Com o segundo casamento, entrou em cena um padrasto. Nada contra padrastos, porém, no caso em questão, indesculpável. Ele é advogado e, aceitando a situação, o sequestro, deixou uma impressão pouco elogiosa. Embora os assuntos legais tenham muitos liames, não pega bem ver um advogado torcendo os fatos em causa própria.
O Supremo Tribunal Federal corrigiu a falha. A avó materna está compreensivelmente inconsolável. Talvez porque sinta a pimenta se aproximando do seu… ahn!, olho. Já imaginaram se os avós paternos resolvem adotar o mesmo sistema empregado por ela, negando-lhe visitas e convivência?
A mãe do menino, que não se sentia 100% amada (o que significa isto?; não sabia que podíamos medir, assim, o amor!) foi 100% cruel quando apartou pai e filho.

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]

Leave a Reply