Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 13 de dezembro de 2019 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Amar e mudar as coisas, por Rafael Tourinho Raymundo

Amar e mudar as coisas

Tenho sangrado demais

Tenho chorado pra cachorro

Ano passado eu morri

Mas esse ano eu não morro

Você provavelmente ouviu esses versos em algum momento de 2019. São de Sujeito de Sorte, canção de Belchior lançada há mais de 40 anos. Apesar da distância temporal, o trabalho do compositor cearense vem ganhando bastante destaque ultimamente. Foi tema de saraus em Porto Alegre e Sapiranga, inspirou livro de poemas, rendeu audição comentada do álbum Alucinação – de onde também saíram Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais e Apenas um Rapaz Latino-Americano.

Os mais jovens talvez reconheçam a estrofe por causa do rapper Emicida. O paulista sampleou esse trecho no refrão de AmarElo, música sobre depressão e saúde mental nas periferias das metrópoles. Até o fechamento desta coluna, o videoclipe havia sido visto mais de 5,3 milhões de vezes no Youtube. E a faixa também entrou para a trilha sonora de Segunda Chamada, minissérie da Rede Globo que retrata a árdua realidade de alunos na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Tenho uma hipótese para explicar o resgate desse clássico da MPB. A exemplo de toda obra atemporal, o legado de Belchior traduz anseios que se repetem ao longo da História. E, infelizmente, os dias de hoje estão tão sombrios quanto em 1976.

O disco Alucinação trata das desilusões de um jovem interiorano na cidade grande. À época, o estilo de vida hippie fracassara, as liberdades individuais eram tolhidas por um regime opressor e pessoas eram perseguidas por suas ideias “subversivas”. Nesse grupo se incluíam artistas, cientistas, professores, jornalistas e quaisquer indivíduos que ousassem ter opinião própria.

Quatro décadas se passaram e eis como estamos. A cultura popular segue menosprezada, a ciência precisa explicar que a Terra não é plana, as instituições de ensino agonizam devido à falta de investimentos e a imprensa sofre ataques sistemáticos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Fazendo uma breve retrospectiva dos textos que publiquei em Panorama, percebo como este foi um ano de assuntos pesados. Falei da ansiedade que acomete os brasileiros. Lamentei as diferenças econômicas e sociais cruelmente naturalizadas no dia a dia. Trouxe à tona a problemática da violência doméstica no Vale do Paranhana. E, por mais que eu insista em valorizar as Ciências Humanas, por mais que eu cumpra o dever jornalístico da busca pela verdade, ainda sinto que estamos todos jogando xadrez com pombos. No fim das contas, cada um mergulha em suas próprias convicções para tentar enfrentar a dureza do mundo. A razão e o conhecimento perderam espaço para crenças dogmáticas embebidas no ódio às diferenças.

Nesse cenário, torna-se particularmente amargo prestar atenção às letras de Belchior. Parece que não aprendemos nada em 43 anos. Pior ainda, recrudescemos. No entanto, é justamente em períodos de retrocesso que emerge a contestação. É da adversidade que surge a criatividade. É na escuridão que as mentes brilhantes cintilam com mais vigor. Não à toa, as novas gerações redescobrem obras-primas do cancioneiro tupiniquim.

A potência transformadora está aí. O povo sangra demais, chora pra cachorro, mas resiste. Governos tiranos passam. Políticos imbecis caem. Depois de tudo, sobra a poesia.

Prefiro acreditar que a leveza da poesia vencerá a política do ódio. Por isso, encerro minha contribuição de hoje com mais um verso de Belchior, extraído da faixa-título de Alucinação. Fica o lema para 2020: amar e mudar as coisas me interessa mais. Amemos. Só assim a gente muda.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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