
No (des) focar da vida
Outro dia mandei lavar o carro. Estava há tempo apenas acumulando pó e farelos de biscoitos e barrinhas de cereal. A situação, de longe, não condizia com o carro de uma jornalista – segundo meu pai. Pois bem, resolvi a parada com uma ligação e alguns tostões. Dois dias depois, ao chegar do trabalho, estacionei na garagem (como de costume) e fui recepcionada pela Helena, que estava numa daquelas semanas de muito afeto, voltado à mãe, no caso eu – comportamento que oscila de maneira que não sei explicar; apenas administrar (risos).
A bichinha saltou da sala e me abraçou as pernas, já na garagem. Vestia um sorriso de criança arteira, que parece querer ler mentes e, às vezes, consegue manipular meus atos apenas com o olhar. Nas mãozinhas, que agora tomam forma de mãos de criança – antes mais pareciam biscoitos – segurava um suculento pedaço de frango, pois a avó preparava o almoço e ela, esperta que só, já havia garantido uma porção de proteína.
Que cena linda, não fosse o fato de que a agitação do serzinho angelical a direcionasse ao carro da mamãe, recém-lavado, e.. ela o engraxasse todinho na lateral. Graças ao cansaço, não tive energia para repreendê-la, apenas a informei do que havia feito e a afastei, decepcionada. Meu pai não esboçou reação alguma, mas deve ter achado graça. Tirei a Helena de cena e voltei admirar o carro, bastante insatisfeita. Mas nada fiz para remover a sujeira.
Dias depois, saí do trabalho e fui buscar minha pequena arteira para irmos para casa. Atarefada, repassando compromissos e agendas mentalmente, saltei do carro e fui encoberta por uma nuvem de poeira vermelha, resultado da passagem de um caminhão, que não teve dó – talvez se encontrava no mesmo estado de espírito que eu – e correu ao destino, me deixando com parte da estrada nas roupas, cabelos e carro. Olhei o dito cujo, sem expressão, mas xinguei a mãe dele em pensamento (me julguem).
Percebi que xingar a mãe do rapaz não mudou em nada minha situação. O que mudou foi o fato de que agora meu carro estava ainda mais sujo. E o engraçado é que a graxa, carinhosamente espelhada pela pequena arteira outrora, agora tomou forma de arte. A poeira cobriu a textura sobre a lataria branca, dando lugar a algumas mãozinhas, misturadas num movimento abstrato e tonalidades, ora mais leves, ora mais escuras, avermelhadas pelo pó da rua. Esqueci a irritação, o caminhão, a agenda, e fui bombardeada por flashes de memórias da minha pequena arteira. Do sorriso inocente, do olhar puro, dos carinhos e cochichos; das confidências e canções que compartilhamos na sala. Fui sugada para uma bolha e achei graça de tudo aquilo.
Aquela cena, comum, liberou um gatilho em minha mente, reafirmando que as ações dos outros não têm poder sobre nossas reações. Podemos driblar a previsibilidade e sentir, responder, enxergar o que estivermos dispostos – no momento, ou por toda a vida. Seja frente a coisas boas, ou a coisas ruins – por mais amargas ou empoeiradas que estejam. Tudo depende de como ajustamos nosso foco, para onde miramos, porque e onde queremos chegar. Depende de desfocar da multidão, e se enxergar único; capaz de assumir as rédeas do próprio destino, filtrar bons conselhos e inveja – que às vezes vem disfarçada de “crítica construtiva”. Felizarda foi a Helena, que de arteira passou a artista. E mais ainda eu, pelo privilégio de poder amá-la – com ou sem graxa nas mãos.
Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
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