
5 lições da quarentena (até agora)
Beijos são arriscados. Galera lotando os bares, nem pensar. A pandemia de Covid-19 esvaziou as ruas e modificou a forma de convivermos em sociedade. Parece que o mundo como o conhecíamos acabou. O que sobra
Ondas de solidariedade e carinho vêm emergindo, especialmente nos ambientes digitais, e valores esquecidos foram resgatados. Diante dessa realidade atípica, cito cinco pontos que me parecem positivos. Vamos à lista.
1) Confinamento não é isolamento
Lives – ou transmissões ao vivo, em bom português. Essa tem sido uma das principais estratégias de comunicação das últimas semanas. Da cantora fazendo show na sala de estar ao personal trainer conduzindo um exercício aeróbico, sempre tem um conteúdo pipocando nas redes sociais, em tempo real.
Somos um povo gregário, que gosta de estar junto para contar histórias. Na impossibilidade do contato físico, a tecnologia acaba encurtando as distâncias. Tentamos seguir nossa rotina de trabalho, estudo e lazer, mesmo que separados por uma tela de celular.
Outras formas de convívio são possíveis, minha gente. A quarentena distancia nossos corpos, mas não nossos afetos.
2) A arte importa
Nestes tempos de raras saídas à rua, também temos que ocupar o tempo livre de maneiras novas. Há quem prefira organizar as gavetas, limpar a casa ou se aventurar na cozinha. Já outros, menos afeitos às tarefas domésticas, preenchem o ócio com livros e maratona de séries.
Arte, muitas vezes tida como supérflua, tornou-se ferramenta de sobrevivência. Natural, né? Músicas, filmes e contos são feitos para mexer com nossas emoções. As obras nos ajudam a imaginar um mundo diferente, sem coronavírus nem preocupações sobre o futuro da humanidade. Elas amaciam nosso coração em períodos ásperos como o de agora.
Resta-nos valorizar mais os profissionais da cultura. É graças a eles que temos entretenimento.
3) A ciência não pode ser menosprezada
Ouvi tantos disparates nos últimos anos: a Terra é plana, vacina causa autismo, aquecimento global não existe… Parecia que as mentiras da internet estavam ganhando, de lavada, a luta contra a ciência. Aí veio a pandemia.
Gostemos ou não, as orientações da Organização Mundial da Saúde estão nos salvando de um colapso ainda maior. Lavar as mãos com frequência, reforçar o distanciamento social e usar máscara quando necessário são medidas que, realmente, vêm freando o avanço da Covid-19.
Essas recomendações não são arbitrárias. São resultado de pesquisas científicas. São decisões baseadas em dados que podem ser verificados e aperfeiçoados. Ainda bem que as autoridades sensatas seguem o protocolo.
4) A imprensa tem relevância
Não importa a ideologia política. Governistas e oposicionistas continuam acusando a mídia de manipuladora. Porém, o jornalismo se baseia na apuração de informações fidedignas para atualizar o público sobre o que está acontecendo. Mesmo com falhas, tal esforço rende um material bem mais confiável que as mensagens dos grupinhos de WhatsApp.
Ouso dizer que as pessoas, finalmente, querem notícia de qualidade. Telejornais e sites de imprensa vêm batendo recordes de audiência. Há inúmeras fake News na rede, então os veículos tradicionais tornaram-se filtro para desmentir boatos. Trata-se de uma questão de saúde coletiva.
Café não mata o vírus. Nem vinho. Nem limão com bicarbonato de sódio. Se você acreditou nessas soluções milagrosas, está se informando pelas vias erradas – e, possivelmente, pondo sua vida em risco.
5) Estamos todos no mesmo barco
Intrigam-me os sujeitos que insistem em abrir o comércio e retomar as atividades cotidianas. Não é hora para isso. Sim, temos contas a pagar e negócios para tocar adiante. Só que o bem-estar econômico não pode vir à custa de centenas de milhares de mortes. Dinheiro perdido a gente recupera. Vidas perdidas, não.
De mãos dadas (virtualmente), as comunidades têm encontrado meios de atenuar o impacto financeiro da quarentena. A loja física passa a vender pelo Instagram. A academia oferece desconto a quem adiantar o pagamento da mensalidade. Amigos arrecadam doações para trabalhadores autônomos que perderam o sustento.
Acredito que tiraremos várias lições disso tudo. Sem desmerecer a gravidade do cenário atual, esta pode ser nossa chance de entender o que está errado na sociedade para, a partir daí, mudarmos as coisas. Estamos todos juntos nessa.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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