Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 8 de maio de 2020 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

A palavra com S que precisamos compreender, por Rafael Tourinho Raymundo

A palavra com S que precisamos compreender

Existem assuntos tão controversos ou delicados que dificilmente ganham atenção da mídia. Talvez o maior dos tabus seja o suicídio.

Meus professores na faculdade de jornalismo ensinavam que esse tipo de morte não rende pauta. As diretrizes dos grandes grupos de imprensa seguiam a mesma linha. Se a pessoa fosse famosa, tornando inevitável a notícia do óbito, não se entrava em detalhes sobre a causa. Havia o temor de que ocorresse o chamado efeito Werther: um aumento nos índices de suicídio após a ampla divulgação de um caso.

Ao mesmo tempo, os veículos de comunicação têm o papel de discutir temas relevantes da sociedade. É por isso que certos fatos, por mais difíceis que sejam, precisam ganhar projeção.

A Organização Mundial da Saúde calcula que uma pessoa tire a própria vida a cada 40 segundos. Ao fim de um ano, são mais de 780 mil histórias interrompidas. Como fechar os olhos diante de uma problemática tão urgente?

O desafio está em abordar a questão da maneira mais adequada. O Ministério da Saúde do Brasil tem até uma cartilha com orientações para profissionais da mídia. O documento afirma que o suicídio pode ser noticiado, mas com discrição.

Sugere-se, por exemplo, omitir o método utilizado ou o local onde se deu o ato. Expor esses pormenores poderia incentivar pessoas fragilizadas a seguirem o mesmo caminho.

Infelizmente, a morte do ator Flávio Migliaccio, no último dia 04 de maio, ilustrou o que não se deve fazer. Dois policiais-abutres fotografaram o corpo e publicaram as imagens na internet, escancarando a forma como a ação foi executada. Alguns comunicadores-urubus, talvez para aguçar a curiosidade necrófila da audiência, reproduziram o conteúdo junto a manchetes sensacionalistas e grosseiras. O vilipêndio do cadáver – crime previsto no Código Penal, inclusive – ignorou todas as boas práticas esperadas numa situação dessas.

O folheto do Ministério da Saúde também solicita que não se revele o teor de uma carta de despedida. Novamente, o episódio aqui citado foi um desserviço. Registros do bilhete manuscrito por Migliaccio circularam na rede.

O texto trazia supostas motivações do ator para agir daquela maneira. As palavras comoveram muita gente. Teve colega de profissão alegando que entendia as circunstâncias. Houve quem dissesse admirar a coragem. Eis o ponto sensível: a glamourização do suicídio, como se essa fosse a única saída (heroica) para um problema.

Outra possibilidade igualmente ruim são os julgamentos de valor. Dizer que o suicida foi fraco, ou que não tinha Deus no coração, nada ajuda. O indivíduo não está mais aqui para se defender das acusações. Nenhum de nós pode saber, portanto, o que se passava em sua cabeça.

Segundo as autoridades de saúde, a vontade de abreviar a vida está quase sempre ligada à depressão. Não se trata de uma falha de caráter, mas, sim, de uma doença. A maioria de nós ignora os sintomas, por isso se surpreende com o desfecho sombrio. No entanto, o fenômeno está ao nosso redor e deve ser compreendido com a seriedade que merece.

Em vez de encarar o suicídio como tabu, é necessário priorizar a saúde mental da população. Entidades como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem auxílio a quem enfrenta transtornos. Taquara tem uma unidade especializada em casos de abuso de álcool e drogas. Confira o endereço e os horários de atendimento.

Já o Centro de Valorização à Vida mantém uma linha direta para pessoas que precisem desabafar angústias e minimizar a solidão. Esse acompanhamento, sem moralismos nem pressões sociais, pode evitar tragédias. O atendimento gratuito funciona 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site (www.cvv.org.br).

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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