
Há tantas urgências a se dizer
Uma das minhas resoluções para 2020 era trazer assuntos leves a este espaço. Quem acompanha as publicações sabe que o texto do mês passado foi sobre suicídio, então parece que falhei na tarefa. De todo modo, a intenção sempre é observar a crueza da realidade sob um prisma otimista – propor uma solução para o problema, dar ordem ao caos, arrefecer discussões calorosas. De amargas, já bastam as notícias.
Foi justamente o noticiário que dificultou minha escolha para o tema da coluna de hoje. Há tantas pautas urgentes que demandam reflexão! Tantos assuntos sérios merecem destaque!
Eu poderia falar de João Pedro, George Floyd e Miguel Otávio, cujas mortes ilustram o racismo estrutural da sociedade. Manter-se neutro diante de injustiças é ficar ao lado do opressor, argumentaria Desmond Tutu. Porém, já tem gente abordando tais questões com muito mais propriedade, a exemplo desta entrevista com a filósofa Djamila Ribeiro.
Eu poderia criticar as festas clandestinas, o futebol de várzea e as aglomerações de rua que seguem acontecendo enquanto os números da Covid-19 crescem vertiginosamente no Brasil. Falta medicamento para intubar pacientes e o sistema de saúde beira o colapso, mas o povo usando máscara no queixo acha que está imune ao coronavírus. No entanto, como não sou autoridade médica, meu discurso raivoso careceria de credibilidade.
Eu poderia, ainda, listar todas as vezes em que apoiadores do governo flertaram com o fascismo – das faixas pedindo intervenção militar aos manifestantes empunhando tochas, bem ao estilo Ku Klux Klan. Só que alertar para a ideologia autoritária do Executivo Federal é quase chover no molhado. Ou melhor: é tacar lenha na fogueira de conflitos que se tornou a arena política.
Enfim, eu poderia abordar muita coisa atual e necessária. Tendo a oportunidade de externar opiniões na imprensa local, sinto-me na obrigação (jornalística, cidadã e ética) de suscitar debates relevantes. Nunca quis utilizar esta coluna para promover meu trabalho, rememorar aventuras da infância ou desenvolver exercícios literários, até porque tem colegas que já fazem isso por aqui, e muito bem. Meu objetivo, de curioso que sou, é apenas questionar um pouquinho os dilemas de nossa época para tentar levar respostas ao público. Com leveza, de preferência.
Peço desculpas por não ser ameno nem ter respostas desta vez. Pensei em escrever sobre as flores do meu jardim para enaltecer a poesia do cotidiano, mas não tem tanta planta assim no meu quintal. Dar ênfase a elas pareceria alienação ou futilidade, frente ao desvario que é sobreviver no planeta Terra.
Lembrei-me duma canção de Leo Cavalcanti: “O mundo explodindo e eu aqui sonhando em ter um amor […] Barragens se rompendo e eu ainda aqui querendo aquele amor”.
Bem, o amor importa. Amar e mudar as coisas continua sendo o lema. Contudo, também importam a igualdade social, a saúde pública, a democracia, a educação, o meio ambiente. São muitas urgências disputando atenção em 2020. Você pode tentar se esquivar delas… Até que elas explodam em sua cara.
Talvez não seja eu o colunista a apresentar as soluções dos problemas. É provável que alguém mais gabaritado tenha se encarregado do serviço. De todo modo, fica meu apelo: informe-se. Estude. Reflita. Se não podemos ser leves, sejamos fortes para aguentar o peso dos dias. E só tem força quem se preocupa com o que está acontecendo.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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