
Não romantizem “deficiência”
Imagens de um cadeirante limpando os destroços deixados pelas ruas do Líbano, após a explosão ocorrida na semana passada, correram o mundo. Ele estava com uma vassoura na mão, juntando a sujeira.
O diferente sempre ganha relevância na rede, choca. Vejo imagens como essa que mencionei, de forma saudável no aspecto de espalhar esperança, um sentimento de fé, por mais que eu não entenda o motivo de tanto estranhamento.
Se o rapaz tem condições de fazer aquela atividade, por qual razão a limitação dele precisa ser destacada? Será que ele gostaria de ser manchete no mundo por conta dela, ou gostaria apenas de receber o muito obrigado de quem viu pessoalmente ele prestar um serviço para a sua comunidade?
Eu tô nem aí para a “deficiência” do cara. Estou feliz de ver que ele é um ser humano que pensa no próximo e na sociedade em que vive.
Somos um mundo preconceituoso. Colocam quem tem limitações como “super heróis”. E não são nada disso. Apenas possuem dificuldades específicas maiores em alguns aspectos. E a grande luta de boa parte dessas pessoas, é serem reconhecidas em atividades que não tenham ligação alguma com a limitação que as acompanham.
Talvez por isso o cidadão cadeirante estava varrendo nas ruas do Líbano. Ele queria passar despercebido o fato de viver em uma cadeira, mas a sociedade não deixa, os cliques também não.
O preconceito está enraizado. “O coitadinho fazendo igual aos normais, olhem que lindo” Cadeirante varrendo ruas, me comove tanto quanto qualquer outra pessoa que faça a mesma atividade, desde que com boa intenção. Se ele conseguiu, não tem nenhum ato heróico, sua restrição de movimentos não atrapalha a atividade. Ótimo.
Esqueçam a pena. Cadeirante não quer ajuda, não quer medalha, não quer reconhecimento por ser um cadeirante ativo. Ele quer oportunidade de mostrar que a cadeira não é dificuldade para nenhum segmento da sua vida.
Em outras palavras, quer ser livre dela, mesmo estando nela.
Por Cassiano Gottlieb, de Taquara
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