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Esta postagem foi publicada em 12 de março de 2010 e está arquivada em Colunas, Penso, logo insisto.

A revolta das coisas

plinio1Do “Meu livro de citações” – Democracia é que nem cobra sucuri: enrola, estica, aperta, mas acaba envolvendo e engolindo a todos. E existe sempre alguém decidido a matá-la.

A REVOLTA DAS COISAS
Há já algum tempo venho pensando num assunto incomodante: por que tantas coisas não funcionam como deveriam funcionar ou, pelo menos, como seria o lógico acontecer, levando em conta o planejado para elas, segundo nossas expectativas. E, diante do seu desempenho, por que não são feitas as alterações necessárias para a correção do problema.
Os setores campeões em falhas são os de engenharia e arquitetura. Claro, todo planejamento é suscetível de erro. Vejam os planos de márquetim. Eles envolvem variáveis não controladas – por exemplo, as reações humanas diante de novas experiências –, por isto é lícito, apesar de não desejada, haver uma razoável folga entre o planejado e o efetivamente realizado. Na engenharia, entretanto, tudo muda de figura. No nosso nível de percepção, os resultados podem, sim, ser previstos. Fadiga de materiais, faltas de energia e reações humanas (num plano de márquetim, elas são imprevisíveis por envolver grandes grupos; aqui é o contrário, pois considera o indivíduo) são componentes de qualquer projeto e têm seus comportamentos totalmente catalogados.
Veja se você já não teve algum problema com o cabo de força de qualquer aparelho elétrico, desses que a gente usa e logo em seguida recolhe, tais como ferro elétrico, secador de cabelos, computador portátil e outros. É, praticamente, impossível guardá-los. Os fios não colaboram e ocupam um espaço definitivamente maior do que havia em suas embalagens originais. O aparelho, em si, foi pensado para realizar uma determinada tarefa, mas o mesmo não aconteceu com esse fio. Pequenas providências para facilitar a vida do consumidor não receberam a atenção dos projetistas.
Quanto à arquitetura, nem vou mencionar os terremotos, pois aí já é abusar. Porém, mesmo em locais livres de abalos no terreno, as edificações continuam caindo ou incendiando ou inundando nas horas mais inconvenientes, isto é: sempre. Não pensem que esses acidentes ocorrem apenas com construções ditas populares, sabidamente inseguras. Quantas vezes, nos noticiários, vemos aquelas ricas mansões americanas em chamas devido a fogo fora de controle! Mais perto de nós, há uns três ou quatro meses, queimou totalmente o setor de projetos da CEEE, em Porto Alegre, provavelmente por causa de uma falha… ahn!… elétrica, num legítimo espeto de pau em casa de ferreiro.
Agora, o pior de tudo são esses “recalls” lançados pelas fábricas de automóveis. A bola da vez está sendo a Toyota, a um custo de mais de 5 bilhões de dólares. Convocar os carros para reparar defeitos que deveriam ter sido corrigidos durante o projeto e os testes é dose. Dá para acreditar na indústria? E na publicidade?, quando afirma que os automóveis anunciados são seguros. Isso desmoraliza até o Conar, órgão cuja função é, justamente, evitar a propaganda enganosa.
Não sei, não. Para mim, estamos nas mãos de uma manifestação quântica. Ela detém o controle de tudo e, por mais que lutemos, continuaremos sofrendo as ameaças das coisas. Há uma autêntica revolução em curso. Se tudo isso não for sintoma de grossa incompetência.

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