Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 4 de setembro de 2020 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Figuras públicas e o respeito aos trabalhadores da imprensa, por Rafael Tourinho

Figuras públicas e o respeito aos trabalhadores da imprensa

Imagine que alguém ultrapassou a faixa contínua e um policial viu a cena. Ele manda parar o veículo e aplica uma multa. O que sobra ao motorista? Acatar a decisão, afinal essa é a consequência para infratores de trânsito, ou dizer ao guarda que quer enchê-lo de porrada?

Agora pensemos numa pessoa com dor de dente. A dentista examina sua arcada, encontra uma cárie e avisa: “vou obturar”. Incomodado, o paciente responde que a consulta está encerrada, levanta-se da cadeira e sai porta afora, boca ainda babando da anestesia. Parece certo?

Um último exemplo. Você está num restaurante, comendo e bebendo à vontade. Depois de algumas horas, o garçom traz a conta. Valor salgado, mas que não chega a ser uma surpresa, já que os preços dos pratos constavam no cardápio. Espera-se que o cliente abra a carteira. Ou seria melhor xingar o atendente de bundão e abandonar o local sem pagar?

Embora esdrúxulas, essas situações ilustram uma lógica bem simples: não podemos desrespeitar um profissional que esteja apenas cumprindo seu dever, por mais que o resultado desse trabalho seja ruim para nós. Porém, notícias recentes mostram como uma classe vem sendo constantemente achincalhada no exercício de sua profissão. Estou falando dos jornalistas.

Cabe ao repórter fazer perguntas, das mais ingênuas às mais incisivas. Seu papel é representar a sociedade junto às figuras públicas, pois nem todo cidadão tem acesso direto aos empresários, cientistas e governantes que ditam os rumos do mundo. Quando uma atitude do Executivo parece suspeita, ou quando um projeto político ainda está mal explicado, é dever do Jornalismo questionar o que está acontecendo para levar essas informações à população.

Por isso, espera-se que um vereador ou um presidente da república responda às perguntas desconfortáveis. Os repórteres estão trabalhando – em prol do povo, vale dizer – e merecem respeito tanto quanto policiais, dentistas e garçons.

Então me lembro do fatídico episódio envolvendo Jair Bolsonaro e um colaborador d’O Globo. Questionado por que a primeira-dama recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar investigado por corrupção, o líder do país preferiu a hostilidade, esquivando-se das explicações.

Não se trata de um comportamento novo. Desde o início da atual gestão, houve pelo menos 22 ocasiões em que o presidente se calou diante da imprensa, interrompeu coletivas pela metade ou proferiu impropérios aos interlocutores, segundo levantamento da Folha de S. Paulo. Os rompantes sempre surgem quando assuntos difíceis vêm à tona, como o suposto envolvimento da família Bolsonaro com milicianos, as quedas de ministros do governo e até o resultado inexpressivo do PIB. Nesse último caso, o “mito” cedeu a palavra a um humorista, que distribuiu bananas aos presentes (a fruta, mas numa ação tão afrontosa quanto o gesto chulo homônimo).

Para não dizer que o problema ocorre apenas na esfera federal – e um presidente, pela posição de destaque, seria mesmo o alvo mais fácil das críticas –, fato igualmente preocupante foi divulgado nesta semana. Dessa vez, envolvia a prefeitura do Rio de Janeiro. Servidores do município foram incumbidos de atrapalhar o trabalho de equipes de TV. Eles faziam plantão junto a hospitais para gritar durante links ao vivo, sabotar entrevistas e dificultar o acesso dos jornalistas às dependências das instituições. Assim, supunha-se, não haveria “propaganda negativa” da saúde pública, como se esconder as mazelas fosse a chave para solucioná-las.

Percebamos a sagacidade da tramoia. Aos olhos dos telespectadores, um sujeito gritando “Globo Lixo” em pleno Jornal Hoje chegava a ser engraçado. Era a sumidade das telecomunicações se dando mal de novo. Contudo, por trás dessa peraltice, havia um estratagema para cercear o direito à informação, ferindo os princípios constitucionais da moralidade e da publicidade, flertando com a censura. Sem contar o desrespeito aos repórteres que tão somente cumpriam sua função.

Pouco me espanta que os poderosos ajam assim. Conhecendo as próprias fraquezas, eles fazem de tudo para escondê-las, ainda que isso signifique subjugar o outro e apelar à agressividade. O que me entristece, revolta e enoja é a condescendência popular. São os cidadãos que aplaudem essa violência institucionalizada. São as pessoas que acham bonito quando a imprensa é atacada, pois “mereceu”. O que ninguém merece é administrador público que foge de suas responsabilidades.

Fique alerta às autoridades que desrespeitam o trabalhador, não importa se esse tenha broca, bandeja ou microfone na mão. Quem trata qualquer indivíduo com truculência dificilmente vai reservar carinho a você.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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