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Esta postagem foi publicada em 13 de novembro de 2020 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Dagoberto velho, por Plínio Zíngano

Do “Meu cinicário” – Quando a filha de 18 anos anunciou o namoro com um homem de 56, a militante antipreconceitos teve uma síncope. Policiar os outros é fácil!

Dagoberto velho

 Cheguei a Taquara no último dia de 1995, vindo de Olinda, Pernambuco, onde morei durante sete meses, com esposa e filho. A mudança, fora um passo mal calculado. Sinto saudade, mas aqui é bem melhor. No nosso caso, certamente, as raízes foram preponderantes para o retorno. As raízes e – muito mais importante ainda – o jardineiro preparador do canteiro onde elas foram replantadas. Vou falar desse jardineiro. Ele morreu ontem!

              No período escolar correspondente ao atual Ensino Médio, no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, tive um colega de aula de quem fiquei muito amigo. Era uma idade de sonhos musicais. Eu tinha uma “banda” junto com outros dois e, quando descobri que o novo amigo também era um sonhador (com um violão e boa voz) convidei-o a ir a minha casa para juntar-se a nós. Ele assentiu de bom grado. Esse “bom grado” logo se transformou em “excelente grado”, pois, passados quatro anos da primeira visita, minha irmã casou-se com ele em 1968. De colegas de aula e ex-parceiros de música (o bom senso já falara mais alto, sugerindo outros caminhos) nos tornamos cunhados. O cunhado era o Dagoberto!

            “Cunhado não é parente; é acidente de percurso”. Nada mais preconceituoso! Só se eu fui o tal acidente. Para mim, ele foi um anjo da guarda: replantou minhas raízes no melhor dos jardins. Moramos, desde a chegada, há 24 anos, no chão onde ele as fixou. Mas isto era pouco. Era preciso adubar a planta. E, novamente, o jardineiro trabalhou. Em março de 1996, ao conseguir um contrato como professor de Matemática no hoje Colégio Estadual João Mosmann, de Parobé, apresentou-me à diretora da escola, intercedendo pela minha contratação. Uma coisa eu sempre lembrava, quase como mantra: jamais fazer meu avalista se arrepender de ter avalizado meu trabalho. Acho que consegui. Em 2019, por indicação dele, tornei-me seu substituto na UNIPACS. Parece autobiografia! Mas a interferência de Dagoberto foi fundamental no meu recomeço no Rio Grande do Sul.

            No ano passado, já doente, o cunhado me presenteou uma garrafa de vinho português de sua pequena adega. Senti mau pressentimento dele e prometi guardar o Portada para quando tudo passasse. Nós dois beberíamos juntos! Ontem, tudo passou. Da pior maneira. Após seu sepultamento, na janta, abri a garrafa e bebi. Sozinho!

                Posso afirmar, categoricamente: minha irmã soube escolher o marido.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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