Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 4 de dezembro de 2020 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

A maior loucura é ser consciente, por Rafael Tourinho

A maior loucura é ser consciente

Hoje é dia 04 de dezembro. Para os católicos, dia de Santa Bárbara. Para os umbandistas, dia de Iansã, senhora dos ventos e das tempestades. Sei disso não por afinidade religiosa, mas devido a um vídeo que viralizou na internet há mais de uma década.

Nesta mesma data, em 2009, a atriz Carolinie Figueiredo visitou o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Começou a cair uma chuva daquelas que lavam qualquer coisa que se deva mandar embora. A jovem, então com 20 anos, quis registrar o momento – e aproveitou para filosofar sobre a vida.

Num discurso intenso, típico de quem tem tantas ideias quanto paixão para defendê-las, Carolinie relativizou seus problemas. Ela reconheceu que as dificuldades da rotina são irrelevantes, frente ao tamanho do Universo. Confessou-se insegura, pois nunca se achava pronta para tomar uma iniciativa, mas também se mostrou incomodada com a passividade de quem espera algo acontecer. Ela decidiu que, daquele momento em diante, não seria uma família, uma empresa ou uma sociedade que a calaria. Ela sempre buscaria a transformação.

O vídeo caiu na rede poucos dias depois – e a repercussão, nem sempre positiva, foi imediata. Houve quem duvidasse da sobriedade da autora. Disseram se tratar de delírio, ou mesmo de encenação. A moça foi questionada, parodiada e achincalhada pelos quatro cantos da web. Tudo porque ousou ter opinião numa época anterior ao Instagram, quando famosas ainda não se expunham dessa forma no ambiente on-line.

Cá estamos em 2020 e a epifania de Carolinie não poderia ser mais atual. Tem sido um ano difícil, e quem não pirou um pouquinho que fosse provavelmente não o viveu na plenitude. Uma pandemia chegou ensinando algumas lições, embora muita gente preferisse ignorar a gravidade da Covid-19. O noticiário nos bombardeou com assuntos urgentes, mas alguns sujeitos fecharam os olhos e espalharam fake News na melhor das intenções. Racismo, machismo, ciência, meio ambiente, política e o papel da imprensa foram postos em pauta. Muito se discutiu e a humanidade segue em busca de soluções para seus dilemas. Ninguém parece chegar a um consenso, até porque a opinião do outro é tida como insanidade.

Neste cenário doido, a fala da atriz se mostra ainda mais relevante. Dizia ela, naquela tarde chuvosa, que “a maior loucura do mundo é ser uma pessoa consciente”. De fato, comprometer-se em fazer o bem nem sempre dá certo, especialmente se as circunstâncias ao redor dificultam o progresso. Nessas horas é preciso ter calma para encontrar caminhos abertos no meio do caos. Calma, luz, sabedoria e todos os atributos rogados no vídeo viral de onze anos atrás.

Em tempo: a própria Carolinie admitiu que seu pequeno manifesto poderia ser um rompante. “Falar é fácil. Tem que viver”, reiterou. Porém, lembremo-nos de que transformação não desponta duma vez só. Assim como a felicidade não chega, instantânea, no dia em que nos mudamos para a Bahia ou um país maravilhoso, o despertar da consciência se faz no cotidiano. Ele ocorre aos poucos, a cada notícia e a cada reflexão. O que importa é estarmos dispostos à mudança. Só dessa maneira a gente evolui. Encerro a coluna, portanto, com o link para o inusitado e necessário vídeo. Feliz 04 de dezembro a você. Que as tempestades de ideias limpem o céu de sua mente. Boa transformação.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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