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Esta postagem foi publicada em 21 de dezembro de 2020 e está arquivada em Penso, logo insisto.

E agora, José?, por Plínio Zíngano

Do “Meu cinicário” – Como prometer alguma coisa a alguém se não conseguimos cumprir promessas feitas a nós próprios? Basta ver as boas intenções de fim de ano!

E AGORA, JOSÉ?

 Esta é a última crônica antes do Natal deste abençoado ano de 2020. Parece-lhe ironia sobre o ano quando escrevo isto? Pois parabéns! É essa a minha intenção mesmo. Salvo o breve período de trégua dado pelo vírus chinês diante do grande imunizante chamado “eleições”, as coisas têm sido difíceis. Talvez devêssemos ter uma eleição a cada dois meses para tudo se ajustar mais rapidamente. Não estou me referindo apenas à doença provocada pelo Corona. Isso já seria bastante estressante. Mas quando as instituições às quais recorremos, usualmente, na busca de informações sobre qualquer acontecimento, formam um consórcio para cumprir a missão auto-imposta, aí a coisa fica bem fosca. Sim, os veículos de comunicação escolhem a missão a ser cumprida por cada um. Faz parte dos objetivos de cada empresa. Do contrário, teríamos monopólio. Certamente, cada televisão, jornal, revista ou estação de rádio jamais admitirá. Pelo menos não no nosso sistema político-social. Entretanto, é o que está acontecendo.

            Desde o dia 18 de março, tenho usado máscara e higienizado as mãos com o álcool. Fiz a vacina contra a gripe e, nas primeiras semanas, lavava até as sacolas das compras do supermercado, afora efetuar a limpeza individual das embalagens dos produtos trazidos. Confesso, aos poucos, me pareceu algo inútil e abandonei esse quase hábito. Minhas convicções foram bastante minadas, quando descobri que nem todas as atividades da sociedade obedeciam o lockdown. O futebol, por exemplo. Não importa dizer que os jogadores sempre tivessem acompanhamento segundo os protocolos sanitários mais rígidos. As aglomerações de todo o pessoal necessário para realizar uma disputa, acabava com qualquer cuidado. E a programação da televisão, a principal disseminadora da neurose que se tornou a pandemia? Duvide do distanciamento de quem aparece sozinho no vídeo. Há muita gente ao redor para colocar a imagem no ar. E lojas e bancos, impedindo grupos de pessoas no interior de seus prédios, mas promovendo ajuntamentos na porta, esperando a vez de entrar? As prevenções perderam a consistência.

            Então, chegou a vez das festas de fim de ano. Ver e ouvir médicos, dizendo como deve se comportar o participante de uma festiva reunião familiar, beira o ridículo. Neste momento, vem a justificativa para o título deste comentário. É um poema de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1942: “A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? (…) você marcha, José! José, para onde?”.

Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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