Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 8 de janeiro de 2021 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Dar nome às coisas aguça o olhar, por Rafael Tourinho

Dar nome às coisas aguça o olhar

Os povos antigos não tinham palavra para a cor azul. Eles enxergavam o céu e o mar da mesma maneira que nós, mas simplesmente não precisavam de um termo específico para classificar alguns tons da natureza.

Estudiosos apontam que, primeiro, as civilizações identificavam o branco e o preto. Eram conceitos que diferenciavam dia e noite, claro e escuro. Depois vinha o vermelho, talvez por indicar perigo. Afinal, quem sangra corre risco de vida. Só então é que o restante da paleta ganhava denominações.

Ter um substantivo para o azul era sinal de uma linguagem sofisticada, fruto dos avanços de pensamento numa sociedade. E esse processo continua a acontecer. Basta lembrarmo-nos das nuanças bege, areia e creme: na concepção de um leigo tudo parece marrom-claro, mas mostre-as a um decorador ou uma designer e eles notarão as particularidades.

Isso significa que, quanto mais alguém se aprofunda num tema, mais aperfeiçoado se torna o seu olhar. E aí surgem palavras novas para fenômenos antigos.

Bullying, por exemplo. Quem tem mais de 30 anos pode dizer que tal violência não existia em seu tempo de escola. Havia pirraça, chacota ou gozação. Bullying? Isso é invenção recente.

Porém, vendo em retrospecto, fica fácil perceber que certas piadas soavam sem graça, ou que algumas brincadeiras eram agressivas. Em muitos casos, elas abalavam a saúde psicológica dos atacados e deixavam marcas para a vida toda. Ou seja: já eram bullying, ainda que não se usasse o termo.

Também vale citar o feminicídio. Esse crime foi tipificado apenas em 2015. Trata-se do homicídio motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero contra a mulher.

Se listássemos mortes violentas de mães e namoradas, anteriores à lei 13.104, é bem possível que todas as evidências do feminicídio estivessem aí. A misoginia e o machismo estrutural permeiam nossa cultura há séculos. Demorou demais para batizarmos esse assassinato tão característico.

Resumindo, palavras novas para questões antigas são consequência do amadurecimento de ideias. Ao darmos o nome certo para as coisas, conseguimos percebê-las com mais nitidez. Logo torna-se simples diferenciar piada e bullying, da mesma forma que os antigos aprenderam a distinguir o celeste e o anil.

Portanto, quando um homossexual reclamar que certo comentário é homofóbico, ou quando um preto disser que aquela expressão é racista, não responda que é frescura nem diga que “o politicamente correto foi longe demais”. Essas pessoas provavelmente têm uma perspectiva mais aguçada que a sua.

Ouça com atenção e aprenda com elas. Quem sabe você até consiga visualizar melhor os diversos tons do mundo.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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